Democracia em polvorosa

Nos Estados Unidos da América um presidente peculiar, para dizer o mínimo, tenta sublevar seus eleitores para subverter um processo eleitoral de dois séculos e meio

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Estamos vivendo dias de Democracia em polvorosa. Nos Estados Unidos da América um presidente peculiar, para dizer o mínimo, tenta sublevar seus eleitores para subverter um processo eleitoral de dois séculos e meio - moroso e alambicado, mas rigorosamente legal - a fim de perpetuar-se no poder. No Brasil, o presidente, descontente com o resultado das urnas, nega-se a cumprir o ritual formal e diplomático de congratular o presidente eleito da grande nação americana. Já havia feito o mesmo com a Argentina. Nova diplomacia do tacape e das inimizades ideológicas. E pelos corredores do Itamaraty ouve-se o brado abafado de: “Branca…. Branca“….

Nos jornais, na televisão, nos tabloides e nas redes sociais o impasse adquire tons e subtons de novela mexicana, com participação especial do presidente do país. Não se fala de outra coisa e os dias escorrem como se vivêssemos o grande choque civilizacional do século 21. Mas, será que - como diria minha avó - não estamos gastando vela com mau defunto? Obviamente, por trás das travessuras de Trump há uma mão invisível a tentar uma saída para os embaraços e encontros amargos dele com o Direito penal americano.

Como sempre, Trump usa artifícios mediáticos e psiquiátricos em causa própria, revestindo suas lamúrias com lágrimas de crocodilo pela sorte de seu povo. A mim não interessa este jogo frívolo e abusivo. Preocupam-me apenas as consequências dele para nós e inquietam-me as lições a tirar desta canalhice para nosso presente imediato e nosso futuro e o de nossos filhos e netos.

Deixemos Trump e suas torpezas seguirem os caminhos nevoentos da astúcia e da malícia e nos voltemos para o fenômeno político e social a nos inquietar de forma profunda.

Não tenho a pretensão de esgotar aqui todas as facetas, todos os labirintos e redemoinhos a nos desafiar neste ano de 2020, certamente marco histórico e divisivo da humanidade contemporânea, humilhada e abatida por peste só conhecida em tempos medievais, cujo desenlace ainda sequer se avizinha a não ser com a esperança de uma possível vacina em 2021. Objeto também de macabra e indecente quizília político-demagógica.

Com ela, Peste, e talvez dela derivada como fruto podre, emergem tensões políticas e econômicas apadrinhadas por ideologias destrutivas a disseminar mundo afora uma radicalização premonitória de tempos vividos sob as botas de totalitarismos no primeiro quartel do século 20, século até então reconhecido como o de maiores carnificinas na idade moderna.

Nesta ótica - preliminar reconheço - a recém-encerrada eleição nos Estados Unidos da América se coloca diante de nós como o enigma da esfinge. Teremos chegado ao ponto de inflexão em que o racionalismo e a democracia poderão nos ajudar a reabrir o caminho para a posteridade ou, ao contrário, nos assinala uma noite ainda maior nas sendas do escravismo moderno, repintado de “novo normal”?

Em 2020, faz meio século do aparecimento no eixo Estados Unidos-Europa e pelo acasalamento ideológico de Reagan e Thatcher, abençoado pelo pensamento tortuoso de Hayek, de uma maquiavélica sociologia.
Thatcher a expressou literalmente ao dizer que “não há sociedade e sim indivíduos”. E a partir daí se puseram em marcha os mecanismos de destruição criativa, quando mercados são gradualmente libertos de amarras regulamentares erguidas pelo Estado para o controle de manobras perniciosas de lucro a qualquer preço e ganância a qualquer custo.

Durante os últimos 50 anos, de forma sistemática e “globalizada”, os direitos individuais de vida e de bem estar coletivo foram esmagados como ervas daninhas no pastoreio da liberação selvagem da financialização internacional, na eliminação dos freios nacionais de derramas e sangrias, em nome da “racionalidade"dos mercados e na hipotética gestação do “homus economicus" onde o individualismo e a acumulação do lucro passam a ser pontos cardeais de uma desnorteada civilização mercenária.

Organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional se tornaram garantes de uma política econômica internacional na qual os conceitos de desenvolvimento econômico foram gradual e perniciosamente gerando conceitos como o “Consenso de Washington“ de abertura assimétrica de fronteiras comerciais, cujo resultado mais visível terá sido o aprisionamento de políticas nacionais de estímulo ao desenvolvimento social.

Paradoxalmente, com a retração de salários e os rearranjos de seguridade social abocanhados por megacorporações, os próprios países desenvolvidos e dentre eles os Estados Unidos da América, garante militar e financeiro do neoliberalismo, começaram a sofrer os espasmos de desigualdade social e estagnação, quando não o empobrecimento da classe média. Com a crise do crédito podre de 2008 surgem as raízes do populismo autocrático e messiânico de Trump a pregar uma redenção dos pobres com a magia do enriquecimento exponencial dos ricos.

A derrota de Trump nas eleições de novembro serviu para escancarar a abissal divisão política e econômica do país e expôs a falência de um modelo econômico pretensamente voltado para uma América mítica que jamais existiu, fascinado por para uma cultura retrógrada a miscigenar o de “Cesar com o de Deus” e alimentar uma supremacia branca armada contra um suposto comunismo deliróide e racista. 78 milhões de eleitores votaram contra o embuste. Principalmente jovens. Negros. E estudantes universitários. A conta ainda pode aumentar.

E nós no Brasil, o que vemos? Hoje, um tropismo fétido pelo trumpismo. A crença fanática em modelos falidos de política econômica. O monumental gigantismo da desigualdade social. O estúpido servilismo de uma política externa ideológica, canhestra e ridicularizada no Brasil e fora dele. A fé infantil em imaginários rios de investimento estrangeiro a bater à porta do maravilhoso parque de diversões do posto Ipiranga .
E a parva estultice, em bi bemol maior, de acreditar, como diziam Reagan e Thatcher, que, fora este chiqueiro, “não há alternativa".

*Embaixador aposentado