O que o Rio de Janeiro precisa aprender com o apagão do Amapá?

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No dia 03 de novembro um incêndio na subestação Macapá deixou aproximadamente 765 mil pessoas sem energia no estado do Amapá. Além do “apagão”, uma das principais consequências sentidas pela população foi o colapso do sistema de abastecimento de água potável. Esse cenário de caos social ocorreu pela queda de um sistema de infraestrutura fundamental sem redundância.

Mas o que o Rio de Janeiro precisa aprender com essa situação do Amapá, se nosso sistema elétrico possui diversas redundâncias de geração, fornecimento e distribuição? De fato, hoje nosso sistema elétrico está interligado a ponto de nos garantir energia mesmo que alguma estrutura deixe de funcionar, porém não se pode dizer o mesmo do sistema de abastecimento de água na Grande Rio.

A Cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense possuem uma população de aproximadamente 10 milhões de pessoas que são basicamente abastecidas de água por um antigo sistema (Guandu-Lajes-Acari), composto por unidades com idade média de mais de 60 anos.

O real risco está no Guandu que fornece mais de 80% da água dessa região. A ETA Guandu que pode ser motivo de orgulho para alguns, por entenderem ser a maior estação do mundo, é também motivo de grande preocupação. Uma falha operacional, uma necessidade de manutenção imprevista, ou um acidente, como o que ocorreu no Amapá, em qualquer ponto do sistema Guandu, representará o desabastecimento de água de milhões que aqui vivem, o que seria uma catástrofe pelo menos dez vezes maior.

O Rio Guandu, fonte desse sistema é, na verdade, um rio “artificial”, que depende do funcionamento de uma transposição de águas. Através de bombeamentos e turbinamentos para geração de energia elétrica, o denominado “Sistema Santa Cecília”, da Rio Light, capta as águas do rio Paraíba do Sul na altura de Barra do Piraí. O início dessa construção remonta aos anos de 1930. A falha em uma destas unidades com mais de 80 anos pode representar a interrupção da disponibilidade de água na captação do sistema Guandu. Essa preocupação está presente em diversos trabalhos técnicos e inúmeros artigos da área.

O Rio de Janeiro precisa aprender com o que acontece no Amapá e fazer as devidas intervenções para ampliar a segurança hídrica de nossa Região Metropolitana.

Miguel Alvarenga Fernández y Fernández. Engenheiro Civil/Hidráulico da Fiocruz. Professor do curso de Engenharia Civil do Cefet/RJ. Presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – seção Rio de Janeiro.