Psicopatologia do extremismo

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Trinta e sete psiquiatras americanos publicaram nos Estados Unidos a segunda edição do “The dangerous case of Donald Trump” (O perigoso caso de Donald Trump), título a dispensar maiores explicações. Em sua primeira edição, publicada antes da eleição de Trump em 2016, o número de psiquiatras era de 27. Os dez psiquiatras adicionais beneficiaram-se da observação dos dois primeiros anos do mandato do presidente dos Estados Unidos.

Nos anos 60 interessei-me muito pela obra de Freud e, nela, os aspectos psicopatológicos dos líderes políticos mundiais me levaram a outras descobertas sobre a personalidade autoritária e a influência da neurose e até da psicose em desmandos governamentais de ditadores desde Calígula e Nero até, obviamente, a Hitler, Stalin e outros menos votados.

Não saí convencido dos argumentos sobre Trump, até porque os psiquiatras foram os primeiros a serem cautelosos em suas deduções por ética médica e por resguardo contra ações jurídicas.

Quinta feira passada, o discurso de Trump na Casa Branca revelou um homem transtornado por um quadro clínico de depressão e com uma logorréia delirante com forte conteúdo megalomaníaco. O fato de ser o presidente da maior potência nuclear do planeta a descrever uma “conspiração “das instituições de seu país contra sua reeleição” me fez lembrar das tragédias de Shakespeare, o maior conhecedor da alma humana antes de Freud.

A interrupção da transmissão de seu discurso pelas três maiores cadeias de televisão dos Estados Unidos, cujos locutores avisaram não haver a menor identidade entre Trump e a realidade dos fatos, foi a maior e mais explícita defesa pacífica da sociedade. E a maior expressão da responsabilidade da imprensa. Curiosamente, toda esta anarquia pareceu normal. E as bolsas subiram no Oriente.

O presidente dos Estados Unidos abusa de seu poder de ofício, coloca em risco a ordem pública, torna o maior país democrático do mundo comparável a mais primitiva e sanguinária horda bárbara e tudo parece absurdamente normal. Talvez, seja apenas um filme do Tarantino.

Todos nós que o vimos e ouvimos tememos por nossos filhos e netos e entrevíamos em nossa imaginação amedrontada cenários trágicos a ocorrer em uma eventual reeleição ou até mesmo nos últimos meses de seu mandato. Talvez, quem sabe, renuncie e negocie um perdão de seus crimes com seu vice-presidente. Não me surpreenderia.

Enquanto isso, o cidadão Stephen Bannon, em liberdade mediante fiança por crime - apropriação indébita de doações para a construção do muro entre México e Estados Unidos - em curso de apuração nas cortes de Manhattan, tonitruava que o maior infectologista de seu país e assessor principal de Trump no combate à pandemia do Covid-19, deveria ser decapitado. Declaração particularmente infausta quando se recorda que, na França, um professor de ensino médio foi degolado em público por suposta ofensa a Alá. Bannon foi homem-chave na eleição de Trump. Idealizador de uma Associação de países de Extrema Direita. Preso, acusado de afanar a bolsa de senhoras enriquecidas e assustadas com mexicanos estupradores.
Trump perderá a eleição. Mas, não há de perder sua convicção de ter sofrido crime de regicídio. Certamente, se escapar do imposto de renda, fará o possível para permanecer à sombra do poder, único holofote a acalentar seu imenso narcisismo ferido.

Importa para todos nós compreender porque estamos deixando para nossos filhos e netos um mundo tão alucinado. Mais importante ainda é reconhecer que os Trump desta era geológica foram criados por nós e fomos nós que a eles demos o poder de nos escravizar e destruir. Como nossos pais fizeram com Hitler. Ou com Mussolini.

E assim fizemos por sintonizarmos nossas fragilidades com a aparente segurança prometida. Somos homens dependentes de pais dominadores. Somos mulheres incapazes de afirmar nossa identidade. Somos homens e mulheres a nos refugiarmos em totens e tabus por temor de enfrentar a finitude da vida. E a ela nos darmos e dela recebermos a inevitável cota de dor e prazer.
E neste ciclo maldito do medo de nos unirmos em torno do bem estar comum, entregamos, por ideologia, delírio ou dinheiro, nossos destinos a farsantes e hipócritas, meliantes e mafiosos. A Psicopatas cretinos e aleijões mentais.

EM TEMPO: Este artigo já estava escrito quando se tornou pública a eleição de Joe Biden. Vira-se, assim, uma página perigosa da história dos Estados Unidos. Biden tem diante de si uma tarefa de Estadista. Tentar curar as sequelas de quatro anos de ódios e equívocos. Repousa sobre seus ombros o trabalho de fazer renascer a crença na política a serviço do bem comum. Mais do que nunca, Biden terá que apagar de nossas memórias a frase diabólica de Thatcher e Reagan de que “não há alternativa" para o capitalismo além de constante pauperização de muitos em favor do enriquecimento exponencial de muitos poucos. E Biden é o último político de minha geração. Voltarei ao tema em próximos artigos.

*Embaixador aposentado