Escutem Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro, educador, sempre dizia: 'A educação é uma prioridade básica. Você não pode jogar a criança para a marginalidade'

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Antropólogo, historiador, sociólogo, escritor, Darcy Ribeiro, se estivesse vivo, teria completado 98 anos, no dia 26 de outubro.

Além do belíssimo trabalho em relação à cultura indígena (quando era jovem, saiu de Montes Claros, em Minas Gerais, para estudar Medicina em Belo Horizonte, mas, apaixonou-se por Antropologia), teve entre os seus objetivos a defesa da Educação e da Cultura.
Dedicou os primeiros anos de sua vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia (1946-1956).

Darcy Ribeiro, educador, sempre dizia: "A educação é uma prioridade básica. Você não pode jogar a criança para a marginalidade".

Amigo e admirador do notável educador Anísio Teixeira, ao lado dele foi um dos criadores da Universidade de Brasília, nos anos 60 e foi o primeiro reitor da instituição.

Nos anos 90, quando já atuava como senador pelo Rio de Janeiro, concebeu o projeto de criação da Universidade do Norte Fluminense.

Encarou, de fato, os problemas de ensino no Brasil, quando assumiu o Ministério da Educação, na primeira fase (parlamentarista) do governo do ex-presidente João Goulart, entre setembro de 1962 e janeiro de 1963 (entre 1963 e 1964 foi ministro chefe da Casa Civil) .

A criação e implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEPs) nos anos 80, quando Leonel Brizola foi eleito governador do Estado do Rio de Janeiro, foi um marco. Visionário, Darcy Ribeiro concretizou, nessa época, o que Anísio Teixeira já havia idealizado. As crianças pobres, sem dinheiro para frequentar escolas particulares, teriam no ensino público, assistência em tempo integral.

Apesar de sua morte precoce, provocada pelo câncer, em 1997, Darcy Ribeiro legou uma obra incrível.
Em 1995, publicou “O Povo Brasileiro” (completou 25 anos semana passada), que aborda a formação histórica, étnica e cultural dos cidadãos brasileiros, com impressões baseadas em sua experiência de vida.
Darcy Ribeiro escritor deixou livros inesquecíveis, como os romances “Maíra” (1976), “O mulo” (1981), “Utopia Selvagem” (1982) e “Migo” (1988).

Traduzidos para diversos idiomas (inglês, alemão, espanhol, francês, italiano, hebraico, húngaro e checo), estudos sobre Etnologia (“Culturas e Línguas Indígenas do Brasil”, de 1957,” Arte Plumária dos Índios Kaapó”, de 1957, “A política indigenista brasileira”, de 1962, “Os índios e a Civilização”, “Uirá sai à procura de Deus”, de 1974, “Configurações histórico-culturais dos povos americanos”, de 1975, “Suma Etnológica brasileira”, de 1986, “Diários Índios”, (de 1996) ganharam o mundo.

Também teve traduções para quase todos países de publicações de Antropologia, como “O processo civilizatório”, de 1968, “As Américas e a Civilização”, de 1970, “O dilema da América Latina”, de 1978, entre outros (além de “O povo brasileiro”, de 1995).

Dos ensaios, “Aos trancos e barrancos”, de 1985, e “Noções de coisas”, de 1995, estavam entre os que ele mais gostava.

Na Educação, a obra é fundamental. Desde o “Plano orientador da Universidade de Brasília”, de 1962, até “Nossa escola é uma calamidade”, de 1984, e “Universidade do Terceiro Milênio”, de 1993.
Em outubro de 1992, Darcy Ribeiro foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em seu discurso de posse, deixou registrado:

"Confesso que me dá certo tremor d'alma o pensamento inevitável de que, com uns meses, uns anos mais, algum sucessor meu, também aqui estará, no cumprimento do mesmo rito, para me recordar. Antecipo aqui meu agradecimento a todos".

E, acrescentou:
" Estou certo de que alguém, nesse resto de século, falará de mim, lendo uma página. Página e meia".

Everton Gomes é cientista político.