De cabeça para baixo

...Trinta anos depois, sei que a lembrança do tal sonho veio acompanhada da leitura de um 'meme' sobre a vacina contra a covid-19...

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Décadas atrás, sonhei que via o mundo de cabeça para baixo. Pássaros circundavam minhas orelhas, pousavam nas árvores e voltavam a voar, indiferentes ao universo invertido. Após breve estranhamento, fiquei animado com a novidade. Mas, feito uma criança na montanha russa, com a diversão veio certa relutância em jogar os braços ao céu. Era como se as mãos agarrassem um fio invisível que me prendia à superfície. De punhos cerrados e colados às pernas, firmei o corpo no chão. E ao primeiro movimento de ombros, na tentativa de descolar os cotovelos do tronco, fui tragado à vigília. Embora acordado, via o mundo de ponta-cabeça, tal qual no sonho. Ouvia os sons da casa, pessoas na cozinha. A chaleira apitava, um passo ou outro fazia ranger os tacos descolados do assoalho. Na rua, o barulho dos carros trespassava as ripas das escuras venezianas. Devia ser meia-noite, nem isso.

Não me lembro de muita coisa a mais. Penso que voltei a dormir. Ignoro, da mesma forma, quanto tempo fiquei nessa espécie de vertigem. Trinta anos depois, sei que a lembrança do tal sonho veio acompanhada da leitura de um “meme” sobre a vacina contra a covid-19, desenvolvida pela empresa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. O “meme”, num tom depreciativo e preconceituoso, faz referência à incapacidade tecnológica da empresa chinesa.

Assim como no sonho, vivemos numa realidade invertida, uma inversão dos valores? Onde apoiadores do presidente fazem “memes” contrários à vacina, num país que contabiliza mais de 155 mil mortes pela doença? O que vale mais? A vida de milhares ou a perspectiva de vitória na próxima eleição presidencial?

Dias atrás, um amigo comentou sobre os apertos na pandemia. Ele e a esposa não veem os pais há meses, preocupados com a saúde dos seus. Esse mesmo amigo, no entanto, se mostrou reticente à imunização pela “vacina chinesa”, palavras dele. Questionou a intenção do governador de São Paulo, cujos motivos eleitoreiros prevaleceriam sobre a saúde da população. Na sua visão, a vacina em questão, propagada pelo político, seria “meia boca”.

Eleito em 2016 para a prefeitura de São Paulo, João Dória deixou o cargo pouco mais de um ano depois. Seduzido pela chance de assumir o Palácio do Planalto, seu partido optou pela candidatura de Geraldo Alckmin. Restou ao então prefeito, como prêmio de consolação, a disputa ao governo do estado. Venceu no segundo turno. Mas se dependesse dos votos da capital paulista, seria derrotado.

Dória não medirá esforços para disputar a presidência nas próximas eleições. Sua ambição é maior do que a experiência como gestor, de que tanto se gaba. Enquanto prefeito, passou mais tempo no avião do que na sede administrativa. Trabalhava por Whatsapp. Seu legado é nulo. Mas a ineficiência do governador para a labuta não é motivo para rejeição da parceria sino-brasileira. De acordo com estudo recente conduzido pela Revista Nature, cerca de 85% dos brasileiros são a favor da vacina, desde que seja segura e eficaz. A pesquisa, realizada com mais de 13 mil pessoas no mundo, revela que a aceitação do brasileiro à imunização é a segunda maior dentre todos os países pesquisados.

O resultado da pesquisa é animador. Mostra que, no Brasil, o potencial de adesão à futura campanha de vacinação é grande, mesmo com a desinformação sistemática promovida pelo presidente da república. Revela, ademais, um pragmatismo necessário à manutenção da vida.

Perder o controle, deixar-se levar pelo sonho, pode ser cômodo enquanto dormimos. Abraçados pela brisa da noite, cabe-nos aceitar os mistérios do inconsciente. Da mesma forma, é reconfortante acreditar que um político eleito resolverá boa parte dos nossos problemas. Por sorte, com a vigília vem a realidade. Acordamos? Nada como um dia após o outro.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.