Você não é feliz?

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Gol? Espera uns quinze minutos para comemorar. Não custa nada. Você viu, não houve impedimento, tampouco falta, mas... tem certeza? Como fica a sua emoção, se comparada à realidade de 347 câmeras espalhadas pelo estádio?

Ah, na Europa é diferente. Decidem na hora, essa é a verdade. E lá os campeonatos nacionais são disputados, há muito tempo, no sistema de pontos corridos. Mais justo. Afinal, quem se programou, se planejou, organizou as finanças, contratou os melhores jogadores, merece ser campeão. Finais? Onde já se viu a principal competição do país ser decidida nos últimos segundos da derradeira partida, um chute de longe, falha do zagueiro? Você joga o ano todo e num instante é superado por um time pior? Aliás, superação? Erro do juiz? Temos o VAR. Isso é evolução.

Peleja a quatro mil metros de altitude, no calor de quarenta graus? Coisa atrasada. Todos devem jogar sob iguais condições. Campos maiores? Esquece. Mais chance para os dribles? Vamos privilegiar o esquema tático, desenhado por softwares de última geração. E tem mais: o cara que é bom se vira em pouco espaço. Daqui a pouco, serão 11 contra 11 numa quadra de futebol de salão.

Vivemos na Era da Tecnologia. Onde, em breve, os campeonatos serão decididos por programadores. Onde a imaginação é controlada. Tanto mais chance de vencer terá o nosso time quanto melhor for o “gamer” que o conduzir. Saiu do estádio – virtual – e foi para a rua? Cuidado para não atravessar fora da faixa. Para cada contravenção, há duas câmeras de vigilância e vinte sujeitos para as operar. Escreveu errado? O celular corrige. Não se preocupe. Nessa nova Era, o erro não tem espaço. Preocupe-se, unicamente, com a sua felicidade. Você não é feliz?

Então deve ter feito alguma coisa errada. Dívidas? O sistema bancário é implacável. Perdeu o emprego, faltou grana? A meritocracia explica: em algum momento, você foi incompetente. Demitido por xingar o chefe? Aí o problema é outro: faltou inteligência emocional. Controle! Esse é nome do jogo. “Se você não controla, é controlado”. Já ouviu isso antes?

Controle seu dinheiro, controle as emoções, proteja o patrimônio, planeje sua família. O que seu filho faz quando você está longe? Ativou o modo de segurança no celular dele? Por sinal, quantos filhos você planeja ter? Sexo? Programe-se. Se estiver difícil segurar a libido, nada mais desestimulante do que a internet. Há pacotes de banda larga a dar com pau. Peça a qualquer companhia telefônica. Se o sinal da operadora estiver fraco, não esquenta. Use o Wi-fi. Na sua casa não tem Wi-fi? Não? Nem na cidade onde mora, algum parque na redondeza?

E se, por acaso, alguma coisa der errado, uma emoção eclodir e, por exemplo, vier um herdeiro não planejado, ele estará seguro. Beberá somente leite asséptico em caixinha, crescerá jogando online com os amigos, terá aulas por videoconferência, trabalhará remotamente e, caso precise do plano de saúde, um algorítimo indicará o melhor tratamento para uma vida longa, rica, planejada e feliz. Tipo a sua e de centenas de milhões de conterrâneos brazucas.

Ah, e na improvável chance de algo sair do controle na programação da existência humana, tipo assim, um bug, haverá fiscais para garantir a lisura no certame vital. Fiscais humanos, pois há coisas que um robô não faz. Tudo isso para que eu e você não nos preocupemos. Pode passar pela sua cabeça: e se algum espertinho, a fim de levar vantagem, subornar o inspetor responsável pela administração da vida? Relaxa: o presidente da república disse que deu um fim à corrupção no governo. Puxa, que bom! Daqui em diante, a condição humana será governada por um sistema justo e impessoal. Talquei?

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.