Abraço amigo

O convívio com seres de outra espécie nos mostra uma diferente dimensão de mundo, tão necessária

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Gosto dos animais. O convívio com seres de outra espécie nos mostra uma diferente dimensão de mundo, tão necessária. Preocupado com a situação política do país ou a crise no Oriente Médio? Está lá seu cachorro comendo a almofada do sofá. Não estudou para a prova de amanhã, preferiu acompanhar uma série e agora a consciência pesa como um tijolo dentro da cabeça? Relaxa, o gato no seu colo não está nem aí. E não ouse se mexer, pegar o caderno da matéria. Onde já se viu atrapalhar o ronronar do bichano?

A afobação para chegar em casa se justifica caso o pote de ração do coelho esteja vazio. De algum modo, cuidar do pet alivia a pressão de ter de pensar em nós mesmos, ininterruptamente. Talvez estejamos fartos, da mesma forma, do convívio com outros humanos, cujo olhar espelhado reflete não mais do que nosso próprio egocentrismo. Investir afeto, interagir com o cão, gato, iguana, ser retribuído com uma lambida – ou uma mordida –nos lembra que somos feitos de carne, osso e sangue.

Para além do afeto, entender os animais e suas características físicas e comportamentais traz benefícios práticos. Esses dias, saiu a notícia de que, no Reino Unido, cães são treinados para identificar o cheiro da Covid-19 em seres humanos. Nos aeroportos de Dubai e Helsinque, a capacidade olfativa canina, milhares de vezes mais aguçada do que a humana, ajuda a detectar o vírus em passageiros com rapidez e precisão quase total.

E não apenas nós, humanos, podemos ensinar os cães a agir em ambientes dominados pelo homo sapiens. Da mesma forma, animais podem dar dicas valiosas de comportamento. Na natureza selvagem, por exemplo, certos hábitos preservam populações inteiras quando expostas a doenças contagiosas. Uma reportagem publicada na edição de setembro de 2020 da revista Scientific American Brasil revela que grupos de lagostas utilizam a estratégia de distanciamento social em ambientes onde alguns indivíduos estão doentes. O mesmo comportamento foi identificado nas sociedades de formigas, mandris, peixes e mangustos-listrados. Ao identificarem, por meio do olfato, certa doença em parte dos membros da turma, ora os animais saudáveis se afastam, ora os próprios contaminados se distanciam dos semelhantes. Evitam, assim, o espalhamento da enfermidade.

No universo humano, em que a razão possibilitou avanços tecnológicos absurdos, essa mesma razão pareceu faltar no campo comportamental. Você, caro leitor, consegue imaginar um animal racional pegar um avião e contaminar boa parte de sua equipe de trabalho, na mesma aeronave? Vejo apenas uma explicação racional para esse comportamento: senso de destruição da espécie. “Vâmo acabá com tudo isso que tá aí!”, diz o sujeito infectado. Tem gente que só sabe destruir. Construir, que é bom, nada.

Outro infectado, esse nos Estados Unidos, de quem a pessoa no parágrafo acima se considera amigo, pegou Covid-19. Presidente e candidato a reeleição, o país que governa superou as 200 mil mortes na pandemia. Assim como seu presumido amigo no Hemisfério Sul, Trump mal usa máscara, tampouco age para evitar a contaminação de pessoas próximas. O máximo de empatia que demonstra se resume na frase: “Não tenham medo da Covid. Não deixem que ela domine sua vida.” Somadas, as populações de Brasil e Estados Unidos representam pouco mais de 7% do total de habitantes no planeta. E 34% das mortes pela doença.
Ao que parece, a tática de negar o óbvio desastre não anda fazendo sucesso por aquelas bandas. Em pesquisa encomendada pela CNN e realizada no início de outubro, 57% da população prefere o candidato Joe Biden, contra 41% de Trump. Caso a diferença seja mantida, o próximo encontro entre os amigos de hemisférios distintos pode ocorrer no Brasil.

O bilionário norte-americano visita o “parça” brasileiro. Pegam um barco e vão caçar lagostas, só para relaxar. “Vâmo acabá com todas elas”, diz o anfitrião. “Yeah, vamos quebrar as cascas delas e mostrar quem realmente manda”, reflete o ilustre recém-desempregado. A depender da capacidade olfativa e senso de coletividade dos crustáceos, a caçada dificilmente terminaria bem. Mais fácil os dois colegas se perderem em alto mar. Ao cair da noite, a fome apertando, ao menos teriam um amigo a quem pedir um abraço.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.