Sonho de distopia

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Anos atrás, numa manhã ensolarada, lembro-me bem. Fazia calor, os pássaros cantavam com tranquilidade, seus piados nada ameaçados pelo som dos motores de carros. A luz do verão aquecia as pétalas das flores, que ardiam em fragrância. Após o café, li o jornal enquanto esperava minha filha acordar. Era domingo, dia de vestibular, segunda fase, redação. Ela faria a prova. Despertos e alimentados, peguei o carro e fomos ao local do exame. Minhas recomendações triviais foram abafadas pelo som do fone de ouvido da passageira. Nem a buzinada para o desavisado felino a atravessar a rua foi suficiente para afastar os dedos adolescentes da tela do celular. A paz reinava, ao menos para a candidata ao meu lado. Deixei-a onde alguns estudantes se agrupavam. Voltaria em poucas horas.

Ao buscá-la, perguntei sobre o tema da redação: utopias. Primeiro, amaldiçoei os organizadores da prova. Por que um tema tão, tão, ‘geral’ – foi a palavra que me veio? Que absurdo! Imaginei professores de colégio indignados. Hoje percebo a contemporaneidade do tema. Pensar um mundo utópico pode nos fazer refletir sobre o que desejamos ou, ao menos, não desejamos. Queremos viver num país onde governadores e prefeitos de grandes cidades estejam envolvidos em negociatas com criminosos? Desejamos a utopia da cegueira? Imaginar que, como avestruzes, a felicidade só é possível quando escondemos a cabeça debaixo da terra?

 

Na Amazônia, madeireiros dizimam florestas enquanto instituições preparadas para combater incêndios não têm o apoio necessário. As imagens do Pantanal, milhões de vidas animais e incontáveis hectares de mata são incinerados, abafados pelo discurso inócuo de incompetentes. Enquanto o país tem mais de 130 mil vítimas fatais de covid-19, o mandatário do executivo nacional brinca e diz que ficar em casa é covardia. Alguns amigos próximos dizem estarmos vivendo uma distopia.

 

Discordo. O dicionário Priberam define distopia como “Ideia ou descrição de um país, de uma sociedade ou de uma realidade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia”. Não vivemos num país, sociedade ou realidade imaginários. A coisa é real, está acontecendo e debaixo do nariz de todos nós. A distopia pode ter sido sonhada, talvez sob efeito de um ideal totalitário delirante, por certa ocupante de um Ministério que, num surto de perversidade, agiu para manter a gravidez de uma menina de 10 anos vítima de estupro!

 

Não dá. Desculpas, temos além da conta: “Ah, mas se não for esse, vem o outro candidato”. “A internet”, dirão alguns, “influencia votos”. “O que fazer? Pelo menos ele fala o que pensa”, outros argumentam. Difícil acreditar que fazer arminhas com a mão e desdenhar da vida de milhares de mortos pela pandemia sejam atitudes alinhadas com os valores de parte expressiva da população. Difícil, também, não enxergar que, no alto escalão do executivo nacional, aquele que “fala o que pensa” pense mais na reeleição presidencial do que no bem comum.

 

No início dos anos 80, quando a palavra “vestibular” não pertencia ao nosso vocabulário estudantil, a sirene do recreio tocava e todos corríamos para o campinho de futebol do colégio. Num dos intervalos, a bola foi parar na rua e a perdemos. Quebramos nossos cofrinhos, reunimos a economia do lanche e demos o dinheiro na mão do representante de classe eleito, responsável por comprar uma bola nova. Um dia depois e nada de bola. “Vou comprar amanhã”, disse. Segundo dia e o representante teve um contratempo familiar. No terceiro, sob olhares irados e desconfiados, o garoto falou que havia sido roubado, todo o dinheiro se fora. Não havia provas do contrário, perdemos nossas parcas economias e a brincadeira do intervalo. Mas o sujeito, ao menos enquanto frequentou o colégio, não se candidatou a mais nada.

 

Será que, ao nos tornarmos adultos, desaprendemos a votar?

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.