Fora da razão

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"Auschwitz mudou a base para continuidade de condições de vida no interior da história", fora da razão diz Saul Friedlander. Certos acontecimentos são considerados como marcantes na medida em que servem de indícios para fenômenos sociais de longa duração.

Vivemos atualmente imersos, consciente ou inconscientemente, numa cultura centrada em expectativas, exigências e frustrações, que gera dor por não ser visto, por não ter presença. Uma cultura que nos convida a aceitar sem reflexão que vivemos numa realidade independente de nós, realidade que tem a ver com atendimento a expectativas centradas no sucesso, no poder, no controle.

Daí muitos se sentirem despojados de sua individualidade. Só a consciência de que vivemos um mundo de realidades possíveis que surgem com o nosso afazer nos permite escolher qual realidade queremos viver. A tão ansiada busca pela liberdade está na conquista da autonomia reflexiva e da ação consequente como único caminho no respeito por si, pelo outro e pelo mundo que nos rodeia.

Envolvidos como os benefícios do desenvolvimento tecnológico, muitas vezes nos esquecemos de entendê-lo profundamente. Tem sido assumido que um país com pesquisa científica desenvolvida gera espontaneamente tecnologia avançada e competitiva. Talvez essa premissa não seja mais absolutamente necessária hoje. É possível, inclusive, que sejam mais urgentes ideias criativas que possam sanar problemas concretos, e mesmo triviais - basta atentar para os persistentes problemas energéticos nos rincões do País.

Alçar o bem-estar dos cidadãos à condição de norteador das decisões de políticas públicas deve comandar o processo de ensino. Um número surpreendentemente elevado de indivíduos não sabe como consegue que as coisas sejam feitas. Para saber como alguém se desempenha, é fundamental saber como aprende. As maneiras como os indivíduos o fazem são as mais diferentes possíveis.

Discutir sobre a necessidade de se desenvolver ou adotar uma dada tecnologia, mais do que um dever, é uma obrigação social. Quando a tecnologia é posta numa discussão, nesses dias que correm, dúvidas e questionamentos aguçam as opiniões. Parece que todos viram especialistas de algo que nem sempre compreendem muito bem. Muitos, inclusive, se exacerbam no uso de seus argumentos.

Um ensino só pode ser considerado de qualidade se der oportunidade à construção do conhecimento por todos os indivíduos envolvidos no processo, somente se permitir que seus participantes cresçam intelectualmente, e assim se transformem em indivíduos de fato conscientes de seus papéis enquanto membros de coletivos mais amplos do que apenas as suas comunidades profissionais.

Hoje encontramos uma dissociação entre o sentido que esta atividade tem para a sociedade e o sentido que ela tem para quem a exerce. 

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)