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Terceira idade e a importância das praças

Jornal do Brasil EVERTON GOMES, redacao@jb.com.br

No Rio de Janeiro, contamos atualmente com uma significativa população de idosos. São mais 15% da população. O que nos coloca em segundo lugar, no ranking nacional entre as capitais. Isso requer políticas públicas apropriadas. Para garantir bem-estar e qualidade de vida a uma camada que os cientistas que estudam esta pandemia definiram, de imediato, como grupo de risco

É necessária a construção de espaços públicos cada vez mais acolhedores. A produção de novas soluções urbanas deverá levar em consideração a presença marcante deste contingente populacional e suas necessidades.

Sempre escutava de meu avô que nossa vida começa e termina numa pracinha. Certa vez, curioso, pedi que me explicasse o que significava essa frase; e continua fresca em minha memória, como um postulado, aquelas palavras: “Meu meu filho, seus primeiros contatos com a vida comunitária aconteceram quando você foi levado pelos adultos na praça. Ali recebeu banho de sol, aprendeu a brincar, caiu, levantou e deu seus primeiros passos”.

Lembro-me que observava sua preocupação em manter um discurso lógico, talvez porque não se preparara para uma pergunta de um neto, surgida do nada, e emendava: “Quando chegar à minha idade, verá que será neste mesmo espaço que buscará novas companhias: ali será novamente um local mágico! Após a longa jornada da vida, permite-nos um pouco mais de saúde mental, bons jogos de dominó, damas ou carteado com amigos. Aquele é também o lugar de repouso, quando o que desejamos é a simples contemplação da paisagem e do verde; seja isto feito sozinho ou acompanhado”.

A partir deste dia, passei a ver a praça com novos olhares. Tornou-se um "locus" singular. Por isso, penso que deva ser concebida com carinho, porque é um espaço de lazer, sociabilização e também para o acolhimento.

Projeções apontam que nos próximos anos o número total de idosos no país (com cerca de 30 milhões), deverá superar o de crianças e adolescentes de zero a 14 anos. Essa nova realidade requer adaptação dos espaços de convivência pública, pois, afinal, essa transição proporcionará impacto social, econômico e das relações cotidianas.

Um dado alarmante que nos preocupa é o aumento de suicídios entre pessoas acima dos 60 anos. Oito suicídios por cem mil habitantes, atualmente. Segundo o Mapa da Violência, organizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, houve crescimento de 215,7% nos últimos anos. Com o isolamento social forçado pela pandemia, estes números tendem a se agravar.

Recentemente, o Coletivo Rio Boa Praça – grupo cívico que reúne pessoas que defendem a requalificação do espaço público – fez vistorias em vários equipamentos de terceira idade instaladas em praças de várias regiões da Cidade. O resultado da fiscalização foi que, em grande parte dos aparelhos visitados, existiam mal estado de conservação, aparelhos quebrados e, inclusive, alguns expondo seus frequentadores a risco.

Nas mesmas fiscalizações, foram analisadas as condições de acessibilidade. Foi outra lástima. O acesso aos espaços, ou mesmo aos aparelhos destinados a este grupo tão especial, é negligenciado na maioria das vezes. Além disto, coisas que sabemos ser importante para a presença de idosos, como banheiros, são quase inexistentes. Até a segurança deixa muito a desejar.

O economista e professor Carlos Lessa – um dos grandes homens públicos que conheci –, certa vez, numa entrevista, sugeriu que adotássemos bailes da terceira idade em todas as praças cariocas. Essa sugestão, vinda de quem produziu até o último respiro, imediatamente me remeteu a uma imagem. Seria a visão de cidades mais doces, lindas e carinhosas. Não teria como ser diferente, cidades amigas do idoso.

Existem projetos e programas nos quais a Prefeitura da pós-pandemia poderá se inspirar. Um deles – que poderia trazer novas contribuições e agregar saberes para melhor adaptações dos espaços de nossa cidade – é a Universidade da Terceira Idade, que funciona na UERJ. Ali, o poder público poderia beber direto na fonte. Com pessoas em idade avançada, cheias de vida, que, certamente, estariam dispostas a contribuir com ideias e sugestões.

Em síntese: é uma tristeza imensa saber que o Rio de Janeiro, tão inspirador, tem tratado com tanto desdém a sua população idosa nas praças, parque e espaços públicos da cidade. Logo nossos vovôs e vovós, que doaram suas energias em prol da sociedade; e hoje minimamente requerem um pouco de atenção, carinho e cuidado.

Para se ter uma cidade melhor é muito importante que tenhamos um olhar diferenciado para eles. Nada tão difícil que o senso do bem-viver que cabe em todos nós não lhes possa proporcionar. Nessa chamada nova normalidade que se impõe, as cidades têm pela frente inúmeros desafios. Um deles certamente será dar o devido atendimento a este grupo tão especial. Cidades melhores são cidades amigas da terceira idade. 

Everton Gomes é cientista político e porta-voz do Rio Boa Praça.