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O resultado não desejado

Jornal do Brasil TARCISIO PADILHA JUNIOR, tarcisiopadilhajunior@yahoo.com.br

O automóvel criou não só as cidades modernas, mas também o oposto, áreas residenciais em periferias. O automóvel mudou nosso padrão de relacionamento, e sobretudo nosso meio ambiente. Pensamos que inventamos o automóvel, mas ele também nos inventa. Estruturadas conforme as tecnologias de comunicação disponíveis, organizações fazem frente à realidade imposta pela pandemia.

As consequências da aplicação da tecnologia são diferentes da nossa expectativa, e muitas vezes o oposto da nossa intenção. Contando com facilidades ocasionadas pelas tecnologias de comunicação, muitos acreditam que precisam se comunicar mais. Mas a comunicação, de modo geral como qualquer outro aspecto relacionado ao ser humano, raramente funciona da forma como esperamos.

Num exercício de treinamento de gerentes, os participantes só podem se manifestar depois que a exposição da pessoa que acabou de se pronunciar seja plenamente compreendida; o segundo interlocutor repete a mensagem transmitida pelo interlocutor anterior, com suas próprias palavras, e, em seguida, esse mesmo interlocutor obtém a concordância do anterior em relação à exatidão do resumo.

E a experiência prossegue. Mesmo que assim as pessoas estejam se entendendo perfeitamente, instaurou-se grande monotonia. Esse exercício nos faz lembrar de que a transferência de informações precisas é tão somente uma pequena parte do papel da comunicação.

Nas organizações, muitos dos que aparentam ser problemas de comunicação são na verdade problemas de equilíbrio de poder. Assim, quando houver uma grande disparidade de poder, não será recomendável estabelecer uma comunicação totalmente aberta. O resultado não desejado consiste no aumento do poder de quem já o tem, ao mesmo tempo na redução do mesmo de quem não o tem.

Os sistemas que reúnem de informações quase sempre ignoram as necessidades reais dos executivos em favor do que os outros, de acordo com suas próprias suposições, imaginam ser as necessidades de profissionais. Suposições são bastante lógicas - os executivos precisam de estatísticas de pessoal, controle de estoque, número de vendas, etc. Mas as informações são quantitativas, não qualitativas; portanto de pouca utilidade para a alta gerência, que lida com situações difíceis que raramente levam a análises lógicas.

Do que os executivos precisam tem maior chance de ser obtido em conselhos de colegas, do que através de dados abrangentes. Eles precisam de interpretações, opiniões, informações que passaram por crivo. Por isso, passam todo tempo no whatsapp ou e-mail.

Engenheiro, é autor d"Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)