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País - Artigo

Pepinos

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Quanto mais o tempo passa, mais irrelevante se torna a PEPINOS( Política Econômica do Posto Ipiranga e a Nova Ordem Social). Irrelevante, mas não menos atormentadora porque cada proposta da PEPINOS provoca sempre um Deus nos acuda pelo inusitado, pelo surreal e quase sempre pelo amadorismo.

Agora, a PEPINOS não se atém à ordem econômica - com propostas megalomaníacas sem jamais atingir objetivos macroeconômicos concretos- e mergulhou de ponta cabeça na reforma social com o mais abstruso, controvertido e risível projeto de reorganização do serviço público brasileiro nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Na União, nos Estados e nos Municípios.

Se a proposta parece mitômana em sua amplitude e trivial em sua profundidade, não é de espantar a quem já vem nos últimos quase dois anos acompanhando os bafos-de-boca do gerente do posto Ipiranga, sua astúcia, sua megalomania e sua impermeabilidade ao bom senso, inclusive de seus acólitos e colaboradores, quando não de economistas de renome nacional. Nada adianta, porém: a PEPINOS tem um certo ar de verdade sagrada, de fé irremovível em seu profeta.

Sua cláusula pétrea perpassa os mandamentos econômicos e agora se espraia nos preceitos sociais a iluminar o projeto de reforma do setor público brasileiro. A PEPINOS detesta o estado democrático de direito, tem ojeriza ao papel do governo como indutor do desenvolvimento econômico , considera uma bisbilhotice o contraditório dos partidos de oposição e tem os brasileiros na conta de gente inculta, miserável, sem saída e sem destino. Para resumir : a PEPINOS é antissocial.

Submetida a rudimentos retrógrados do neoliberalismo ultrapassado do final do século 20, comprometida com os objetivos do mercantilismo financeiro predatório, a PEPINOS tem como meta organizacional a redução do Estado a uma força policial a serviço da manutenção de uma ordem afinada com o mais indecoroso desnível social, num país dotado de recursos materiais e humanos para conquistar a economia do bem-estar em poucas décadas.

Tal linguagem soa nos ouvidos dos pepinocratas como anátema, e provoca risos sarcásticos de deboche, pois lhes parece emanar de mentes adulteradas por filosofias esquerdizantes, comunistóides ou infantilóides. Coisa de defensores do meio ambiente, das reformas climáticas. Poetas do indianismo lírico. Servidores públicos a serem demitidos a bem da grilagem, do desmatamento e da terraplanagem. Órgãos como o Ibama, o Inpe a atrapalhar, com o esquerdismo de seus funcionários públicos, os projetos da pepinagem.

Ainda esta semana que se finda na véspera do Dia da Independência, vimos nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro o inqualificável espetáculo patrocinado pelo bispo-prefeito em que supostos “funcionários públicos” guardavam as portas de hospitais públicos para afastar a imprensa e impedir cidadãos em busca de atendimento médico para seus familiares atingidos pela Pandemia pudessem expressar suas queixas e reclamações.

Pergunto: você acha que o projeto de reforma do serviço público, com os constrangimentos permanentes sobre a estabilidade funcional, poderá melhorar o atendimento social ou aumentará o clientelismo e o proselitismo de autoridades políticas galgadas ao poder pelo corriqueiro crime do toma-lá-dá-cá ? Cartas e emails para o bispo. Antigamente, a última autoridade a se recorrer.

A reforma proposta pela PEPINOS só está preocupada em jogar a opinião publica contra o Estado, desfigurá-lo e incitar a ira contra o servidor, como se todos fossem rasteiros e cúpidos como os pepinocráticos os pintam. Como se o servidor público, qualquer servidor público, civil ou militar, fosse despido da razão maior de sua opção profissional: a dedicação ao bem público, ao Estado e não a qualquer governo a se arvorar em senhor dos grotões.

Curiosamente, esta melancólica reforma administrativa jogou para baixo do tapetão legislativo a urgência da reforma tributária. Evidentemente, aí tem mão de gato. A PEPINOS também foi incapaz de seguir ao menos as modestas e cautelosas propostas da OCDE a defender a taxação do grande capital e da grande fortuna, em comparação com o imposto sobre o consumo. A PEPINOS pretende apenas nos enfiar goela abaixo uma CPMF do B. Como coisa nova. Um rato de jaquetão continua sempre a feder a esgoto.

Ainda bem que Novembro vem aí. No Rio de Janeiro, candidato a prefeito já conquistou a “pole position”. Mas, não se iluda. Os eleitores vão querer saber tintim-por-tintim seu programa de governo, suas metas sociais, sua contribuição para fazer do Rio uma cidade que já mereceu respeito. E pretende recuperá-lo.