A importância da figura do pai numa sociedade sem pai

Celebramos nesse domingo 09/08 o Dia dos Pais. É dia de amor e reflexão. Vivemos numa sociedade sem pai ou do pai ausente. Num certo sentido, o pai foi expulso da família na medida em que foi impedido de realizar suas funções paternas. Seja porque o regime de trabalho da sociedade industrial e do conhecimento o ocupa física e mentalmente de forma tão intensa que lhe resta pouco tempo para conviver com a esposa e os filhos/filhas. Seja porque seu papel foi demolido pela crítica à autoridade do pai, por certo tipo de feminismo radical, sem medir as consequências.

O certo é que vivemos num tempo da eclipse da figura tradicional do pai. O que substituiu a sociedade patriarcal foi a sociedade da Grande Mãe, hoje imperante. Ela cumpre as funções da mãe: satisfazer as necessidades dos cidadãos, cuidar da saúde, educação, conservar o existente, eliminar riscos, garantir a fluidez na sociedade.

Esta situação colocou em xeque a identidade do pai que anteriormente desempenhava a função do Grande Pai provedor. Ele se vê agora deslocado e, quando então desempregado, se sente desmoralizado e até insultado.

O enfraquecimento da figura do pai, desestabilizou a família. Os divórcios aumentaram de tal forma que surgiu uma verdadeira sociedade de famílias rompidas e de divorciados.

As consequências para os filhos/filhas são dramáticas. Estatísticas oficiais oferecem um quadro lastimável: mais da metade dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa ou entrando na criminalidade são de famílias sem pai.

A ausência do pai é, por todos os títulos, inaceitável. Ela desestrutura os filhos/filhas, tira o rumo da vida, debilita a vontade de assumir um projeto e mutila a sociedade como se lhe faltasse órgão importante como um olho ou um braço.

É de fundamental importância, fazer a distinção entre os “modelos” de pai e o “princípio antropológico/psicológico” do pai. Esta distinção nos ajuda a evitar malentendidos e a resgatar o valor inalienável e permanente da figura do pai.

A tradição psicanalítica tirou a limpo a importância insubstituível do princípio antropológico/psicológico da mãe (Jung) e respectivamente o princípio antropológico/psicológico do pai (Freud) na constituição e evolução da pessoa humana. Aqui nos interessa tão somente o do pai que hoje celebramos.

Este é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/filha e a introdução do filho/filha num outro continente, o transpessoal, do pai, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes e de outros da sociedade.

Na ordem transpessoal e social, vige a ordem, a disciplina, o direito, o dever, a autoridade e os limites que devem valer entre um grupo e outro. Aqui as pessoas trabalham e realizam seus projetos Em razão disso, devem mostrar segurança, ter coragem e disposição de fazer sacrifícios, seja para superar dificuldades, seja para vencer.

Ora, o pai é o arquétipo e a personificação simbólica destas atitudes. É a ponte para o mundo transpessoal e social. A criança, ao entrar nesse novo mundo, deve poder orientar-se por alguém. Esse alguém é o pai que comparece como herói, como aquele que tudo sabe, tudo pode, tudo faz. Se lhe faltar essa referência, a criança se sente insegura, perdida, sem capacidade de iniciativa.

É neste momento que se instaura um processo de fundamental importância para a psiqué da criança com consequências para toda vida: o reconhecimento da autoridade e a aceitação do limite que se adquire através da figura do pai.

A criança vem da experiência da mãe, do aconchego, da satisfação dos seus desejos, do calor da intimidade onde tudo é seguro. Agora, tem que aprender algo de novo: que este novo mundo não prolonga simplesmente a mãe, que nele, há conflitos e limites. É o pai que introduz a criança no reconhecimento desta dimensão. Compete ao pai ensinar ao filho/filha o significado dos limites e o valor da autoridade, sem os quais ele não ingressa na sociedade sem traumas.

Pertence ao pai fazer compreender ao filho/a que a vida não é só aconhego, mas também trabalho, que não é só bondade mas também conflito, que não há apenas sucesso mas também fracasso, que não há tão somente ganhos, mas também perdas. Se a mãe tende a realizar os desejos do filho/filha, se os programas de televisão exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite, cabe ao pai mostrar que em tudo há limite e conveniência, que todos somos seres de implenitude, limitação e mortalidade, mesmo que o filho/filha o considere chato e insuportável.

Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado do “princípio antropológico/psicológico do pai”. Se não assumir esta missão/função simbólica e arquetípica, o pai concreto está prejudicando pesadamente seu filho/filha pelo resto da vida.

Uma sociedade que, ao criticar sistematicamente um “modelo de pai”, o patriarcal, tiver atingido, com uma crítica sem discernimento, o “princípio antropológico/psicológico paterno”, começa a perder rumo, vê crescer a violência, assiste à demolição da autoridade e deixa imperar a falta de limite nas relações sociais. Ela é condenada à volta do pai, mas agora na forma pervertida do autoritarismo. É o que estamos vivendo e o sofrendo no Brasil. Um pai autoritário que gerou filhos piores que ele, sem qualquer sentido dos limites.

O que ocorre quando o pai está ausente na família ou há uma família apenas materna? Os filhos parecem mutilados, pois se mostram inseguros e incapazes de definir um projeto de vida. Alguma coisa está quebrada dentro deles.

Retenhamos essa ideia: uma coisa é o “princípio antropológico/psicológico do pai”, uma estrutura permanente, fundamental no processo de individuação de cada um. Esta missão/função personalizadora não está condenada a desaparecer. Ela continua e continuará a ser internalizada pelos filhos e filhas como uma matriz na formação sadia da personalidade. Eles a reclamam.

Outra coisa são os modelos histórico-sociais que concretizaram o princípio antropológico/psicológico do pai. Eles são sempre cambiantes. No mundo rural normalmente predomina o pai patriarcal. No urbano, o pai companheiro e amigo.

Os modelos são sempre diferentes. Mas neles todos age o princípio antropológico/psicológico do pai, sem que este, entretanto, se exaura em nenhum destes modelos. Mas todos participam das limitações humanas que devem ser compreendidas.

Importa também reconhecer que, por todas as partes, surgem figuras concretas de pais que se imunizaram da impregnação patriarcal e na sociedade emergente mostram responsabilidade e determinação e desta forma cumprem a missão/função arquetípica de pais para com os filhos, função indispensável para que eles amadureçam e, sem perplexidades e traumatismos, ingressem na vida autônoma, até serem pais e mães de si mesmos.

*Teólogo e filósofo e escreveu: "São José, a personificação do Pai". Vozes 2012.