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Celso Furtado:o iluminista

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Devo a Celso Furtado, cujo centenário de nascimento comemorou-se esta semana, a opção pelo serviço público. Seu livro” Formação Econômica do Brasil “ me permitiu não só ver a realidade do país , mas também acendeu em mim uma insuspeitada vocação .

Os livros e as ideias de Celso Furtado iriam nortear minha vida profissional por mais de 40 anos e a inconclusão da última negociação internacional de que participei ( ALCA ), antes de minha aposentadoria, teria recebido dele o selo de aprovação . Com muita honra.

Comecei a respeitá-lo desde os anos JK, quando participou da elaboração do programa de governo “50 anos em 5” e atuou como conselheiro no rompimento das negociações do governo com o Fundo Monetário Internacional e suas exigências leoninas. O programa de austeridade sugerido a JK colocava em risco a construção de Brasília. JK mandou-os pentear macacos. O FMI. Seus tecnocratas. E seus acólitos no Brasil.

Acompanhei a determinação de Celso Furtado em vencer as carcomidas resistências da Indústria da seca e criar a SUDENE, ponto de partida de uma redenção do Nordeste, infelizmente sabotada por uma elite comprometida com o populismo de cordel.

Indignei-me com sua expulsão do Brasil, cassado pelo primeiro desatino institucional da ditadura militar em 1964. Sabe-se hoje ter Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos da América, e aliado das conjuras militares de então, pessoalmente solicitado a Castelo Branco as razões de tanta violência com um acadêmico respeitado internacionalmente. Menos de uma semana da publicação da cassação, Celso Furtado recebeu convites para lecionar em Yale, Harvard e Columbia. Optou por Yale, onde iluminou jovens americanos. A ditadura graciosamente nos impediu acesso a Furtado, e para aqui só voltou após a anistia. Ingressou no PMDB, como ativo conselheiro de Ulisses, Tancredo e posteriormente de Sarney, como ministro da Cultura.

No Itamaraty a influência de Furtado mudou o comportamento em negociações econômicas internacionais pela transformação trazida pelos estudos da CEPAL em oposição à teoria das etapas de desenvolvimento econômico de Rostow, mito maior dos economistas ortodoxos dos anos 60. Segundo ele, o subdesenvolvimento seria uma etapa comum na estrada do desenvolvimento econômico. Nos estudos da CEPAL, ao contrário, o subdesenvolvimento foi analisado de forma inovadora graças à cooperação entre Raul Prebisch e Celso Furtado. A partir deles, surgiu a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) quando os países subdesenvolvidos passaram a atuar em bloco e a reivindicar reformas do sistema econômico, compatíveis com a descolonização e os objetivos de paz e desenvolvimento inscritos na Carta De São Francisco. A esse movimento deu-se o nome de Terceiro Mundo, mas aos poucos foi objeto de intencional confusão com comunismo e outras selvagerias.

A primeira UNCTAD se realizou em Genebra em 1964. O Brasil a ela compareceu com uma notável delegação chefiada pelo embaixador Jaime de Azevedo Rodrigues, acompanhado por uma nova geração de diplomatas já perfeitamente informados das teorias de Prebisch-Furtado e animados com a possibilidade de encontrar para o Brasil formas novas de cooperação internacional, em busca de um desenvolvimento efetivo e socialmente equitativo.

Poucas semanas depois de sua inauguração em Genebra, ocorre no Brasil a instalação da ditadura militar em primeiro de abril do mesmo ano. O novo governo, inspirado pelas advertências de Washington, determinou mudanças radicais no texto do discurso do chefe da Delegação do Brasil. Azevedo Rodrigues delas discordou e em comunicação oficial ao Itamaraty perdeu a frieza e, num momento de rebeldia mandou mensagem respondida com sua imediata exoneração. Na esteira do imbroglio vários jovens diplomatas de sua assessoria direta foram submetidos a inquérito no Itamaraty, primeira vassourada de caça às bruxas no Ministério.

O rigor histórico exige ressaltar o papel equilibrado do Chanceler Vasco Leitão da Cunha, a quem Castelo conhecia desde os tempos da FEB, e soube reduzir a meras advertências administrativas as punições dos diplomatas indiciados. Cassado foi apenas Jaime de Azevedo Rodrigues, o primeiro diplomata punido por acreditar na boa razão de uma causa e na veemência de defendê-la. O segundo, pouco tempo depois, Antonio Houaiss, então representante alterno do Brasil nas Nações Unidas, teve a cabeça pedida pelo governo salazarista a quem desgostava por ser um fiel amigo e conselheiro informal dos africanos defensores da libertação das então chamadas colônias ultramarinas de Portugal. Fez a melhor tradução do Ulisses de Joyce no Brasil e elaborou o Dicionário Houaiss, referência maior da língua portuguesa na lusofonia. Hoje está no Panteão dos imortais da Academia Brasileira de Letras e na boa lembrança de todos que tiveram o prazer de escutar-lhe a sabedoria e a cultura. A Africa portuguesa deve-lhe uma estátua.

Também por esta época Castello Branco pronunciou discurso no salão nobre do Itamaraty no Rio de Janeiro - belo, mas em permanente conflito com a acústica. Para a voz de Castello foi um desafio, e para nós uma angústia. O discurso ficou até hoje conhecido como “bi-fronte”. Castello defendia uma politica externa brasileira não bi-fronte, em referência a nosso distanciamento das posturas econômicas e políticas dos Estados Unidos da América e nossa suposta subversão de nos aproximar do Terceiro Mundo anárquico . Para nós, em cujos ouvidos ainda ressoavam os discursos seminais de San Tiago Dantas, Afonso Arinos e os escritos de Celso Furtado, foi um aprendizado da arte de engolir sapos e aplaudir o cozinheiro.

(Lembro ainda na platéia - sisudos como se impunha - a poucas cadeiras de distância ,dois jovens amigos, futuros chanceleres da redemocratização. Pelo menos três Secretários-Gerais. Um jovem diplomata, poucos anos depois morto no Haiti ao tentar salvar uma senhora de se afogar numa enchente. Recebeu honras de Estado no Haiti. Quem o conheceu pessoalmente nunca duvidou de seu gesto solidário. Poucos meses depois de começar a trabalhar no Departamento das Américas, havia recusado escrever um memorando defendendo a associação do Brasil com os Estados Unidos na invasão de San Domingos. Correu risco de ser demitido. Foi suspenso e depois mandado para a Divisão do Material do Itamaraty. Grande figura. Grande caráter. Morreu antes dos trinta anos.) Parte importante do discurso de Castello foi elaborada por Roberto Campos. Não me surpreende.

Tanto o discurso de Castello quanto os eventos traumáticos das listas de cassações — degolariam ainda Vinicius de Moraes, dentre outros — tiveram como efeito principal transformar a diplomacia do Itamaraty num exercício de grande prudência e até de um certo barroquismo na elaboração de sugestões e instruções para nossas embaixadas e missões diplomáticas, principalmente porque pululavam nos corredores e no Lago dos cisnes (o Itamaraty ainda estava no Rio) os mais ferozes boatos , mais intensos com noticias de jornais censuradas.

De qualquer forma, as lições de Celso Furtado e Raul Prebisch continuavam a prosperar nas organizações internacionais e já no governo Costa e Silva conseguiu-se maior flexibilidade para defender nosso comércio internacional , fonte não desprezível de aquisição de divisas. Mas, foi apenas quando Geisel assumiu e Silveirinha tornou-se chanceler que se pode retomar com tranquilidade relativa os princípios de defesa intransigente de nosso desenvolvimento econômico, principalmente na UNCTAD.

Durou pouco porém este interregno. As tentativas de reformulação do sistema econômico internacional se encontraram com o neoliberalismo de Reagan e Tatcher e promoveram um forte combate às posturas reivindicatórias dos países subdesenvolvidos e transpuseram para um Gatt revigorado em Organização Mundial do Comércio uma ideologia muito afinada com a globalização e o neoliberalismo, quando o conceito de subdesenvolvimento foi sensivelmente aguado em nome de um comércio livre como motor do desenvolvimento.

Tanto na Europa quanto nos Estados Unidos a defesa da globalização como única alternativa para o desenvolvimento econômico e a redução gradual e sistemática das politicas social-democratas tornaram-se o mantra inescapável e o paradigma das negociações econômicas internacionais.

No Brasil, a eleição de Collor representou igualmente uma guinada de nossa politica econômica externa em favor de uma abertura do mercado brasileiro desequilibrada ( reduzimos tarifas alfandegárias sem reciprocidade). Do FMI, onde vivíamos grandes dificuldades devido a nossa divida externa, em grande parte exacerbada pela violenta elevação dos juros internacionais, surgiu o Consenso de Washington, pedra de cal em nossa politica de origem cepalina.

Nesta hora, foram ainda os livros de Celso Furtado - como “ O capitalismo global “ ( Paz e Terra 2007) juntamente com os de Stiglitz e Krugman que nos permitiram compreender a dinâmica do capitalismo neoliberal e resistir a empreitadas e arapucas como as dos acordos comerciais bilaterais e principalmente a engenhocas como a ALCA . Novas roupagens como “convergência regulatória” , apenas aprofundarão nossa já difícil dependência de controles internacionais e suas profundas implicações.

Celso Furtado nos iluminou o caminho. Mas, os passos são nossos e vejo diminuir cada vez mais nossa preocupação com a autonomia de nosso país e nascer uma politica externa anti-Brasil a nos deixar à deriva num mundo em que só a cooperação e a argúcia poderiam evitar caminhos descabidos.

É hora de reler Celso Furtado. Mas, é sobretudo hora de nos recordarmos da lição primeira da Democracia. Uma sociedade consciente de seus múltiplos problemas mas também movida pelo direito a uma vida melhor para todos, será a única forma racional de nos livramos de uma tragédia coletiva.

Fórmulas irracionais há muitas outras. Todas nos levam à barbárie. Já está germinando.

Adhemar Bahadian é embaixador aposentado