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Pura matemática?

Jornal do Brasil TARCISIO PADILHA JUNIOR, tarcisiopadilhajunior@yahoo.com.br

No mundo globalizado mas de recursos limitados intuímos que nossa extraordinária riqueza humana não é capaz de ser generalizada. Hoje, em plena pandemia do novo coronavírus, toda ação humanitária cria solidariedades concretas, nesse mundo por demais abstrato. Quanto mais um indivíduo aprofunda a própria experiência, tanto mais a sua experiência terá elementos em comum com outras semelhantes.

Ser humano é ser com os outros, só existe na trama da história com que se vê confrontado na linguagem e na comunicação. A vontade de conquistar um lugar condiciona a educação desde a tenra idade, condiciona a compreensão das coisas, comanda o olhar sobre a realidade. A valorização do presente enquanto portador do porvir não pode ocorrer sem valorização do indivíduo, atento aos dramas da atualidade.

Pensando num ser humano em especial a quem acolhemos, é possível examinar toda amplitude de uma existência que escapa a limites. Podemos experimentar nossa dependência total do mistério que nos sustenta. A totalidade da vida é apoiada por um Deus que nos ama. Ele não nega o mal que está no coração de homens e mulheres, mas nos faz a afirmação estarrecedora de que a morte não tem a última palavra.

Seja qual for a situação humana em que o mistério se manifesta, torna-se experiência de graça quando sabemos que estamos recebendo uma dádiva, não se explica por ação ou esforço próprio.Nosso espaço afetivo fundamental é o núcleo primeiro de relações - a família -, o instrumento mais eficaz para a transmissão dos valores, critérios e convenções que se imprimem em cada indivíduo - de que se faz transmissor.

Experiência que traz a sensação de estarmos em harmonia com um mundo além de nós, que excede nossas esperanças e expectativas. Quando nos deixamos tocar por essa verdade em nossas vidas, podemos experimentar nossa dependência radical da graça que nos sustenta.

O mundo não é tão somente a arena onde se desenrola a história humana; apenas quem começa a ver o todo percebe que existe rumo. Assim que a experiência de Deus muda a nossa percepção dos acontecimentos, para que possam ser percebidos como plenos de sentido.

Pode um mundo criado intencionalmente com a liberdade de amar ser pura matemática? Não. O menor que sabe amar é um maior.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)