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Saudade das cartas

Jornal do Brasil JOÃO BAPTISTA HERKENHOFF, jbpherkenhoff@gmail.com

Nestes tempos em que vivo os altos e baixos da Terceira Idade, fui surpreendido por um sentimento intenso de saudosismo.

A primeira saudade que me acudiu foi a saudade das cartas. Sou do tempo das cartas por via postal, que carregavam um certo mistério.

Aderi à internet, aos e-mails, pela praticidade deste tipo de comunicação, mas tenho saudade das cartas de antigamente. Os emails podem ter muita força de comunicação, mas as cartas tinham um sabor especial.

A primeira beleza das cartas é que dependiam da entrega e o carteiro era muitas vezes esperado com ansiedade e alegria. Não foi à toa que a alma de Pablo Neruda atingiu culminâncias em “O Carteiro e o Poeta”.

Numa perdida ilha do Mediterrâneo, um carteiro recebe a ajuda do poeta Pablo Neruda para, através da Poesia, conquistar o amor de Beatrice, sua eleita. O carteiro, que era o mediador da correspondência do Poeta, aprende, aos poucos, a traduzir em palavras seus sentimentos pela amada.

Em troca, Mário, o carteiro, foi o interlocutor do Poeta, mostrando-se capaz de ouvir suas lembranças do Chile e compreender as dores do exilado.

Guardo todas as cartas que recebi de minha esposa quando éramos namorados. Como ela também guardou as que eu mandei, temos em nosso arquivo todas as cartas que trocamos. Hoje estou vivendo a década dos oitenta. Eu a conheci quando tinha dezessete anos.

Tenho também saudade do flerte. Hoje já não se flerta mais. Flerte, que coisa linda!

Mulher objeto? De forma alguma... Mulher destinatária... da admiração, do encantamento, do discreto desejo.

Suprimiram-se as etapas do amor.

Numa sociedade capitalista não se perde tempo.

O tempo destinado à poesia, numa sociedade de consumo, escrava do ter, desalmada, é tempo perdido.

Mas temos de reagir. Salvaguardar a Poesia porque Poesia é Humanismo.

Que mundo triste será este mundo se desaparecerem os poetas...

Juiz de Direito aposentado (ES) e professor