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A um clique da estupidez ou da formação de opinião responsável

Jornal do Brasil CARLOS EDUARDO MADUREIRA

Em 2015, ao receber o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Turim, o filólogo e escritor Humberto Eco, em seu discurso disse que a internet deu ao idiota da aldeia a estatura e a importância de um Prêmio Nobel. A fala rendeu severas e diversificadas críticas. Estaria Humberto Eco, autor de O Nome da Rosa (romance histórico adaptado para o cinema ) a pôr em xeque ou a contradizer-se? Pois, em sua obra ele exaltou e fez questão de frisar o novo, a transformação, o que é culto, trouxe à baila pensamentos aristotélicos para uma abadia imersa na escuridão da letra fria e nas deturpações dos Textos Sagrados.

Pois bem, nesse conhecido embate entre o antigo e o novo, surgem as redes sociais. Até que ponto elas são prejudiciais ou até que ponto nos servem como uma ponte para a praticidade?

A declaração de Humberto Eco reflete o que pensa um homem das ciências, das letras, o que hoje, principalmente no Brasil, está cada vez mais raro. Seria então, a internet “na pessoa” das redes sociais uma espécie de Terra de Ninguém?

As pessoas mudam. Os pensamentos, também . Em 1919, Hermann Hesse, na premiada obra Demian, escreveu que “a vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo”.

Se tomarmos pelo olhar de Hesse, somos capazes de observar um Humberto Eco, no auge de todo o seu sucesso e das diversas modificações como ser pensante que já percorreu o caminho de si mesmo e está bem ciente, não só de si mesmo, mas também do mundo que o cerca.

O pronunciamento de Eco faz sentido quando notamos os comportamentos nas redes sociais.

Não há dúvidas e é consenso geral que a tecnologia foi criada para facilitar a vida do homem. Podemos dizer que a invenção do personal computer (PC) ajudou em muito o homem, tanto na área profissional, como nas questões domésticas (como as planilhas de planejamento financeiro). Mas nosso foco aqui são as redes sociais. Vamos a elas. O encurtamento da distância entre parentes, amigos de longa data, a facilitação para estudos e até mesmo as relações negociais entre empresas em continentes diferentes, tudo isso foi facilitado com o acesso mais livre da grande rede, através dos canais de mídias sociais.

As redes sociais estão para servirem a Humanidade, hoje, como servia o cavalo, na Antiguidade, como auxiliar nas plantações, nos negócios e até mesmo em guerras.

Hoje, as redes passam por esse mesmo processo. São um campo de guerra ou uma terra sem lei.

As batalhas com temas que envolvem a política (no Brasil, mais precisamente desde 2012), nas mídias de relacionamento, têm evoluído de forma brutal, da maneira mais etimológica possível, nos debates via Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp, Telegram e mais o que possa ser viralizado.

A grande questão ressaltada por Humberto Eco é a falta de arcabouço teórico para fomentar os debates com vieses políticos. É possível notar atrocidades ideológicas, históricas, argumentativas, isso sem frisar os erros de grafia, coesão, coerência e pontuação.

A preocupação, na crítica do autor italiano, reside no compromisso intelectual e fidedigno das informações. Nem tudo o que está na internet é verdade.

As redes sociais não podem ser Terra de Ninguém, justamente porque hoje ela já atravessou a fronteira da informação, pois essa, além de encurtar os espaços, também forma opiniões. E, muitas vezes, substitui a mídia de massa e a mídia impressa. O perigo da leviandade está sempre a um clique de distância para o mundo.

É o perigo de o clique ser dado pelo idiota da aldeia, como alerta Humberto Eco.

A responsabilidade que temos pelas informações (ou postagens) nos dá a opção de sermos idiotas ou formadores de opinião.

Professor de Filosofia e Sociologia.