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A Noite em que o Cruzeiro do Sul sumiu

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Seria preciso um Wagner para musicar a reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, na sede do Palácio do Planalto, em Brasília, ano da Pandemia do Covid-19.

A única música cabível seria o Coro dos Peregrinos, do Tannhauser, uma marcha quase fúnebre, fatalista. Um canto entremeado de morte e soturno raio de esperança. Um canto sobretudo de dor, de um povo abandonado dos deuses e ainda assim resistente à morte anunciada.

Naquele 22 de abril de 2020, o Covid19 havia destruído a vida de dois mil brasileiros. Um mês depois, no dia 22 de maio, os mortos no Brasil chegaram a vinte mil, com uma taxa diária de 1001 mortos por dia. Nem na peste da AIDS se chegou a um quadro de tanta desolação.

Hospitais, um após o outro, regurgitam mortos, impotentes diante dos afogados pelo vírus mortal a transformar pulmões em estopas de sangue, corações em intumescidas e infeccionadas massas inertes. Faltam nos país os mais comezinhos meios de defesa, desde máscaras protetoras até os abençoados respiradouros a pavimentar uma difícil escarpa entre a morte e a vida.

Naquele 22 de abril de 2020, o Brasil completava 520 anos e um dia de uma existência plasmada nos mitos da primeira carta do escrivão Caminha para o Rei de Portugal, soberano senhor de poderosas frotas marítimas capazes de enfrentar os abismos de mares nunca dantes navegados, em que habitavam monstros e também sereias.

São 520 anos de uma sociedade plasmada num trinômio autofágico de uma diáspora predatória, mão de obra escrava e de uma casta educada em Coimbra e Lisboa e mais tarde em Londres. Mais tarde ainda em Chicago.

Alambicados nessas fontes alienantes e sedutoras nossos Chicago boys se batizaram na fé inabalável do Deus do mercado e se convenceram de que a solução para o Brasil é a perpetuação de nossa servidão cultural. Na sociedade vencem os que mais aptos aplicam-se na competitiva tarefa de enriquecer. Ou herdar.

E no ano 2020, um dos Chicagos boys, infiltrado no poder econômico do Brasil, não tardou em peregrinar pelos salões das grandes potências a divulgar a notícia da rendição. Bandeira branca. No Brasil, se haveria de vender tudo. E já que ouro se havia há muito tempo vendido, se venderia agora o ouro negro que para nada mais serve senão poluir nossas praias paradisíacas.

E se venderia tudo que em 520 anos se havia construído pela mão de imbecis crentes numa independência que nunca nos chegou e numa soberania que sempre nos escapou. E se puseram em marcha máquinas acéfalas a destruir árvores centenárias de nossa grande floresta para desmatá-la, estuprar seu solo virgem, rasgar seus ovários prenhes de nióbio, de ouro, de diamantes. E mil serras peladas surgiriam para o encantamento dos mercados, a transformar a selva num cassino.

E na política econômica, réptil peçonhento, abriram-se comportas para o ingresso despudorado e espoliativo de um capital dito salvador. Eliminam-se regras de proteção de direitos individuais e o desemprego se incrusta como cogumelo venenoso em nossa seiva de vida.

E surge a pandemia. E em poucos meses a sociedade brasileira desabrocha toda sua macabra feiura, sua indecorosa nudez esquelética, sua frustrada ambição de se tornar humana, em busca de casa, pão, amor.

E no dia 22 de maio de 2020, finalmente se tornou público o grande encontro de nossos maiores, em assembleia de pompa e circunstância no Palácio do Planalto. Nos pusemos todos em aflita expectativa, pois já sabíamos todos que a peste nos havia roubado vinte mil irmãos e vinte mil famílias choravam seus mortos, muitas sem sequer saber onde seus corpos haviam sido enterrados, em palmo de terra perdida.

E se abriu o grande teatro e nos calamos todos. Ali estavam no cenáculo nosso pensadores, nossas grandes e iluminadas cabeças e no centro bem visível e resplandecente, Ele. ELE. Em carne, osso e olhos.

E aos poucos fomos tomados de um sentimento estranho, que a todos abalava mas de que não se tinha coragem sequer de deixar transparecer. Num misto de medo e servilismo, afivelamos nos próprios rostos um sorriso beócio e um olhar mortiço.

E não entendíamos aquela língua. De onde viria aquele falar esbugalhado, aquele gestual enfático, que nos lembrava uma caricatura que Chaplin havia feito no cinema. Que língua e que idioma eram aqueles que nos falava uma mulher como se nos anunciasse a guerra de Sparta contra Atenas? Que cidadão era aquele que como rato esfregava as patinhas impudicas e parecia sugerir coisas ilícitas, vergonhosas, enquanto nos preocupávamos todos com as mortes de nossas irmãos?

Ainda bem que havia Ele. Ali no meio de todos como na última ceia, pintada por Leonardo. E ali também estava o mágico dos números complexos a levantar os braços como Moisés em busca das tábuas. E embora falasse também a língua que ninguém entendia, alguém julgou ouvir “vender o Banco do Brasil já”. E Ele, no centro da mesa, sorria e parecia olhar para 2022.

Terminou tudo muito rápido. E as gentes se falavam que estavam umas encantadas, outras pesarosas, outras ainda, desesperadas. Alguém perguntou o que Ele tinha falado sobre a peste, sobre os 20 mil mortos. Uns se lembraram que Ele armara o povo. Outros disseram que era a forma Dele amar. E chegamos todos à conclusão que aquela língua que falavam era a língua da rendição. Cada um ouvira o que quisera. E Ele na sua infinita bondade nos dava a liberdade da interpretação. E assim caminhamos certos de que o isolamento social havia sido um erro de tradução.

E quando já estávamos no portão do Jardim das Delícias, alguém se deu conta que o céu estava ligeiramente mais escuro. E outro alguém gritou: "nos roubaram o Cruzeiro do Sul".

E milhões de bonés de baseball começaram a cair do buraco negro. Todos eles com mais uma enigmática inscrição: MAGA.

Adhemar Bahadian. Embaixador aposentado