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País - Artigo

Solidariedades pandêmicas

Jornal do Brasil MARCIO OLIVEIRA ELIAS, redacao@jb.com.br

A imprecisão nos caminhos da existência pode nos despertar esperança ou medo, ou mesmo (ainda) os dois sentimentos ao mesmo tempo. O cenário presente de um mundo pandêmico é muito ruim, mas o spoiler do futuro nos aparece piorando as imagens de uma possível sociedade renovada, onde poderíamos experimentar mudanças humanitárias no seu conceito de relacionamentos pessoais e coletivos. Mas não se vislumbram possibilidades concretas de que isto possa acontecer.

 

O avanço da peste contemporânea está motivando distensões entre as nações pelos insumos clínico-farmacológicos, com exemplos amorais de desvios, bloqueios e embates econômicos e geopolíticos acima dos humanitários. Esta distensão deverá prosseguir (ou mesmo aumentar) depois da pandemia, alimentada pelos ressentimentos que pousarão nas consciências coletivas impregnadas pelo egoísmo e preconceitos explícitos.

 

A pandemia poderá acelerar a desigualdade e as distensões sociopolíticas do planeta, que já vinham crescendo com os movimentos xenófobos estadunidenses e europeus, aprofundando as desigualdades históricas no hemisfério sul subdesenvolvido, incentivando o crescente de grupos reacionários neofascistas e antissemitas que nunca deixaram de existir nas sociedades modernas, como também consolidando regimes governamentais totalitários instalados nos mais diversos extremos ideológicos.

 

O novo Coranavirus (Covid-19) já atingiu mais de 190 países e milhões de pessoas ao redor de todo mundo. Mas essa dimensão epidemiológica no Brasil parece não convencer a um seleto grupelho de brasileiros amontoados em sua ignorância seletiva, vociferando que todos os acontecimentos são obra de uma conspiração maquiavélica contra o “Seu Messias”. Acreditam esses “patriotas” que o vírus é “comunista” (termo subjetivo pueril), relativizando todas as questões numa ideologização acrítica, insana e inconsequente.

 

Encontramos também outro seleto grupelho de brasileiros amontoados em sua subserviência ideológica, acreditando que o vírus é um oportunismo “fascista” (mais um termo subjetivo pueril), relativizando todas as questões em torno do seu “santo Ignácio”, pois estão intocados pelos fatos e pela profunda ausência de autocrítica, decepcionando uma história de lutas que se demonstrou sepultada na memória das horas. O sectarismo não é uma característica de iletrados, talvez seja dialeticamente o contrário em todos os casos.

 

As pestes epidêmicas têm vida própria (apesar de todas as simplórias teorias da conspiração e subserviência ideológica), e se apresentam através da história humana com uma frequência cada vez maior em face da globalização crescente nos últimos dois séculos, não obedecendo a nenhum viés ideológico ou processo previsível (Influenza, Ebola, AIDS, SARS, Varíola, Cólera, Febre Amarela, Meningite, Tuberculose, Sarampo etc.).

 

Nestes momentos o medo e a imprevisibilidade geram conflitos externos e internos sensíveis, explicando (mas não justificando) a reação ególatra das nações através dos tempos, que desconstroem o tênue equilíbrio entre a racionalidade fraterna e o senso natural de sobrevivência. Há tempos acompanhamos a prevalência da metodologia estatística (cientificamente importante), mas que no livro dos dias descrevem o ser humano tão somente como números em uma escala prognóstica (PIB, IDH, Censo, Pesquisas etc.), fazendo com que a desumanidade dos números nos conforte (enquanto nós mesmos, ou nossos próximos, não fazemos parte integrante deles), seja por violência, pobreza ou morte.

 

Quando o espírito humano se deixa contaminar pela degradação material não há vitórias, somente perdas. A pandemia poderá (e pode) despertar o irracional de nossas emoções primitivas que se destacam pelo desprezo à vida e a dignidade, impondo visões egocêntricas e dispersivas ao próximo, que se torna um pária (um leproso apátrida) em razão de ódios convencionalmente adormecidos, mas que despertam na fúria dos medos. Esta epidemia poderá aumentar a desigualdade e a polarização extremista na sociedade brasileira, que já vinha crescendo de forma acelerada na última década.

 

Neste momento de tantas inseguranças e temores devemos mergulhar no mais profundo do humano que somos, despertando-nos a essência da concretude cristã que é base existencial da nossa fé; compreendendo a dimensão da esperança como sinaleiro que nos guia até um ancoradouro seguro, renovando forças para seguir a viagem de existir. A vida cristã é a atitude orante modelada pelo Cristo, sob o exercício concreto da misericórdia e da compaixão ou, em contrário, correrá o risco de se tornar somente uma corrente filosófica vazia de fundamentos.

 

O cristianismo está sendo chamado a ser o antígeno de uma ‘solidariedade pandêmica’, entendendo que os sofrimentos do tempo presente devem ser contemplados ao luzeiro da Revelação, crendo na ação do Espírito Santo que acolhe e trabalha incessante já a partir deste e de todos os momentos. A âncora da esperança é para toda a Criação (em exercício da glória do Criador), que não realizou o ser humano perfeito e acabado, mas impelido a aprender o caminho caminhando, sob as primícias do Espírito.

 

A esperança cristã é este viver em tensão permanente; saber que não poderemos fazer um pouso estático (acomodado), mas viver condicionado a realizar o nosso melhor possível. A vida cristã é a tensão da expectativa do rio que se desdobra nas margens esperando a promessa do oceano que lhe aguarda. Não somos poça de água parada, que não corre ou se move, que se corrompe ausente na fé; somos rio em correnteza (às vezes calma, outras vezes caudalosa), que recebe a chuva alimentante da esperança que nos fortalece ao encontro dos mares da existência.

 

A esperança é um sentimento que pode nos constranger; pode nos parecer uma ingênua fraqueza, pois seria um distanciamento ilusório das realidades. Esta premissa de fraqueza e ilusão poderá realmente acontecer, caso não haja compreensão de que o sentido da palavra “esperança” tem sua origem no latim (spes), que significa ‘confiança na construção de algo bom’, como o sentir de quem vê como crível a realização daquilo que se deseja com fé. A esperança cristã é crer na ação transformadora da nossa fé e na proficiência da graça de Deus em nossa humanidade; esperança é a ação da nossa credulidade.

 

A esperança é a mais humilde das virtudes, pois somente os pobres em espírito podem compreender a sua dimensão proativa, inserta no Mistério salvífico do Reino da Esperança, que o Evangelho ensina ser como um grão de mostarda (menor de todas as sementes), crescendo para nos abrigar (Mateus 13,31-32). O Reino da Esperança é fermento que fortalece a nossa consciência para as transformações em nossa própria vida (Mateus 13,33).

 

O cristão é chamado à compreensão de que a credulidade da esperança humana está na dimensão do ‘ser sal’ (Mateus 5,13), sendo tempero de um novo sabor em todos os ambientes; sendo preservador antisséptico no mundo; sendo pureza brilhante diante da contaminação amoral hipócrita. Entender a nossa credulidade humana na dimensão do ‘ser luz’ (Mateus 5,14), sendo a clareza evangélica pelo testemunho verdadeiro aos incrédulos cristãos (ou não cristãos); sendo luzeiro que dissipa as trevas da ignorância mundana; sendo sinaleiro que aponta as perniciosas armadilhas ideológicas de engano e sectarismo.

 

O cristão é chamado à compreensão de que fomos (e somos) criados nesta dimensão trinitária: ser esperança testemunhal evangélica nos ambientes a que pertencemos; ser sal para interromper (ou ao menos retardar) o processo da corrupção moral e espiritual do humano; e ser luz para desfazer as trevas do obscurantismo de crentes e não crentes.

 

Neste momento de inseguranças e temores o cristão é chamado a se realizar diferença na história, sem a conformidade da cultura prevalecente dos ódios e dos rancores, difundindo uma contracultura crística, onde Jesus de Nazaré nos chama para exercer uma influência que impeça a deterioração da beleza e da bondade insertas em todos os corações, que o Pai Criador nos implantou em Espírito e Verdade.

Márcio Oliveira Elias – Advogado, Professor de Teologia Pastoral. Atua na formação permanente de agentes pastorais e fiéis leigos na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim/ES, sendo colaborador do Núcleo de Pesquisa e Formação Permanente Evangelii Gaudium, grupo formativo de denominação católica, que tem por objetivo precípuo produzir e difundir o conhecimento da Doutrina Cristã