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E agora, José ?

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Lembrei de Drumond. “E agora, José ? …. sua incoerência… seu ódio… a utopia não veio….você que zomba dos outros…. a festa acabou. E agora, José?"

Tudo derrama como farsa desnudada em balé de almas penadas. De Belíndia a Belhaiti a miséria revela sua escancarada crueza e se abençoam esgotos a céu aberto como purificadores de uma infância desvalida.

Um dia se demite o ministro da Saúde, no outro se desacata o Supremo. E covas se abrem para recolher o estrume humano, sem nome, sem choro, sem respeito. E daí?

Daí que a política insana atravessa a Praça dos Três Poderes, e, finalmente, se vê contida na tentativa de transformá-la em Pavilhão do autoritarismo a qualquer custo. O da liberdade. Do Estado Democrático de Direito. Da Democracia.

Diante de uma Pandemia que vergou os poderosos deste mundo, se levanta voz metálica de sintaxe canhestra, com bafio de sonho de padaria a estimular confrontos tresloucados em nome do direito de ir e não voltar.

Numa inversão do bom-senso mais elementar se incentiva a acomodação cotidiana a um inimigo sanguinário e invisível. E os idosos e frágeis são considerados carga ou lastro desprezível a ser lançada como bagaço nos bueiros e becos sem saídas.

A tudo preside um cesaropapismo de Bórgias. Uma coreografia de Nero. Uma ideologia de Shylock, mercador de Veneza. O mágico de números complexos e linguagem debochada propõe aos desvalidos e desempregados a esmola de duzentas moedas, felizmente multiplicadas por três num espasmo de caridade da autoridade maior. Mas, o mágico, boneco de ventríloquos de mil vozes babélicas se dedica a transmudar a bondade hipócrita na via-crucis de milhões de famélicos, pasto de vírus diante de bancos e caixas econômicas.

Brotam de cavernas hordas de brasileiros sem cidadania e sem face a esticar mãos curtidas por anos de abandono e rejeição. E, como gritava Cazuza, “O Brasil mostra sua cara” e pede desculpas pelo incômodo.

Maestros do matadouro assinalam as filas a serpentear por comunidades seja em busca do pão ou do emprego, do salário desemprego ou da aposentadoria compulsória. Há um visível sentimento de que o povo incomoda, desfigura a paisagem e sobretudo fede o fedor da injustiça secular e da discriminação mais abjeta, que cerceou o ingresso à escola, o acesso a hospitais e agora o encaminha com sorriso de desdém para a morte verde-amarela.

Apenas hibernam em silêncio as forças que levaram você ao poder, José. As ocultas, as dissimuladas, porque as ostensivas estão à vista de todos numa mistura caótica que desde os golpes contra Getúlio são velhas conhecidas de nossa classe dita média que sempre se assusta como cavalo arisco diante do revoar da borboleta.

Desconfio, porém, José, que há ideologia demais no seu entorno. Muito mais das que você pode controlar. São muitas cordas pendentes puxadas por forças centrífugas e rapaces.

Responsabilizo você, em primeiro lugar. Como Collor, como Jânio, você acreditou na conversa mole de que seria fácil lidar com essa imensa massa humana chamada Brasil. Essa sociedade múltipla de virtudes e vícios. Escravocrata na origem. Patrimonialista no sangue. Paternalista no coração.

E você vendeu gato por lebre. Começou comprando os gatos felpudos do mágico mestre dos números complexos, boneco de ventríloquo de uma babel de vozes sorrateiras a aconselhar a venda de tudo, tudinho. E ainda escarnecer; "só não vendo a Petrobras e o Banco do Brasil porque ele (você José,) não quer." Fala isso como se você fosse ridículo, José. Ele te acha um boboca.

O mágico o convenceu de que o mal original é o Estado. Aquele mesmo que deu a você casa e comida ao longo da vida. E você jurou defender contra invasão e espólio. O boneco de ventríloquo passou dias e noites a doutrinar sobre a soberania do mercado, senhor onisciente de nossas necessidades e aspirações. Ele, José, é a maior forca ideológica do seu universo.

Veja que na Pandemia o mago dos números complexos quase desapareceu. Entrou em mutismo crônico e só a duras penas concordou em oferecer assistência aos desvalidos. Propôs duzentas moedas. Você triplicou. Fez bem. Mas, não poderia esperar que as artimanhas do mágico seriam tão perversas. As promessas demoraram a sair do papel e quando saíram foram tão confusamente distribuídas que milhões de desvalidos, desempregados e marginalizados se expuseram à voracidade do vírus. Em busca do pão nosso de cada dia, o povo virou pasto do Covid-19. Não digo que tenha sido intencional, mas fez com que Trump dirigisse a você, José, as trombetas do escárnio. Logo ele, que te afagava o ego.

E quando no centro de seu entorno, José, aventou-se a possibilidade de promover uma política econômica voltada para os investimentos públicos e para o combate ao desemprego e à expansão da renda nacional, nosso mágico ameaçou afogar todos os coelhos de sua cartola.

Mimado por você, voltou a rezar a rasteira ladainha de que, logo-logo, com o desmanche do Estado, voltaríamos a crescer e bilhões de dólares de investimentos estrangeiros viriam em nosso socorro. Quem acredita nisso, José, pode crer, está a fim de bater a carteira de todos nós. Sobretudo a sua.

Você, José, errou ao entregar a uma só cabeça o planejamento e a condução operacional de nossa economia. Permita-me dizer-lhe sem rodeios; nossa estratégia neoliberal está na contramão de todas as estratégias mundiais. Nós não precisamos de um Posto Ipiranga. Nós precisamos de toda uma refinaria. Não de marqueteiro de vendas. Se você, José, fosse Estadista abriria um debate amplo com nossos pensadores nas Faculdades e talvez você se surpreendesse com as múltiplas e mais profundas alternativas que temos diante de nós para um desenvolvimento econômico e social mais justo. Mas, você não fará isso com as panteras cor de rosa de seus ministros da Educação e das Relações Exteriores. Sem esquecer do ministro do Meio Ambiente que nos isolou de qualquer debate produtivo no mundo. Lamento, são crias suas. E será por elas que seu governo será lembrado na história.

Como se dizia nos meus tempos, você está numa sinuca de bico, José. E nós todos também. Mas, um Estadista não nasce feito. Ele surge na hora em que seu povo assim o exige. E, por favor, não o confunda com um mito.

EM TEMPO: Veja no you tube o debate civilizado de três ex-chanceleres, um professor universitário e Rubens Ricupero, sobre politica externa.

Adhemar Bahadian é embaixador aposentado