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Heróis e vilões se confundem (ou nos confundem)?

Jornal do Brasil MARCIO OLIVEIRA ELIAS, redacao@jb.com.br

A psicanálise freudiana ensina que negação da realidade é uma maneira de perceber uma consciência reprimida, por medo ou incompetência. Todos nós temos o ímpeto de criar heróis que façam o melhor trabalho que não podemos fazer, ou nos comprometer; imortalizamos pessoas e as isentamos de erro e fragilidade. Mas o engano é certo e as decepções se sucedem na história das idades.

 

Não haverá necessidade de concordar com todo o contexto exposto adiante, pois não há absolutamente nada que não tenha sido amplamente noticiado e registrado nas mais diversas mídias jornalísticas e sociais. A realidade é a melhor companheira da sabedoria, pois dela retiramos a nossa consciência crítica (ou não).

O ex-juiz federal e ex-ministro Sergio Moro foi alçado ao panteão dos heróis da pátria, transmutando todos os sonhos pueris e as decepções da multidão com outro ídolo, que se mostrou construído de barro (ou lama). Mas o engano continua certo e as decepções se sucedem na rotina das idades.

 

Ante de iniciar sua senda política, o ainda magistrado Sérgio Moro já demonstrava o relativismo de seus conceitos de probidade. Foi noticiado sem contestações que ele é dono de imóvel próprio na capital paranaense, mas fez uso de decisão liminar do Supremo Tribunal Federal, para passar a receber auxílio-moradia destinados a juízes não residentes em seu foro de atuação.

 

Para justificar a flagrante imoralidade e ilegalidade do ato nosso ilibado magistrado afirmou que seria “uma compensação” pelas perdas salariais de sua categoria. A desfaçatez desta justificação foi recebida com “normalidade” e obsequioso silêncio por toda a claque midiática que endeusa o inaudito herói nacional, como se esta atitude não fosse de uma prática flagrante de corrupção ou, minimamente, de imoralidade. Mas o engano continua certo e as decepções se sucedem na rotina da história.

 

Não há como negar que sua fremente atuação na operação Lava-Jato foi histórica e marcante, mas também pavimentou a candidatura do então candidato Jair Bolsonaro, influindo diretamente no curso político das eleições presidenciais de 2018. O status de paladino da justiça angariou uma seita de adeptos, que não enxergavam qualquer outro caminho senão o extremismo de sepultar a tudo e a todos que representassem o que se convencionou chamar de “velha política”; não fosse o Messias também um “museu de grandes novidades”.

 

Eleito presidente da República Federativa do Brasil, o senhor excelentíssimo Jair Messias Bolsonaro revelou, sem nenhuma reserva, que seu nomeado ministro da justiça e segurança pública, Sérgio Fernando Moro, negociou um compromisso presidencial de ser nomeado para a primeira vaga que surgisse no Supremo Tribunal Federal. Tal afirmativa ficou enviesada numa série de justificativas simplórias do tipo “fui mal interpretado”, e novamente se fez um silêncio obsequioso da claque.

 

Afirmam os exegetas que o número sete é cabalístico, mas podemos aqui contemplar uma série de crimes de responsabilidade, falsidade ideológica, prevaricação, coação, corrupção, advocacia administrativa e até obstrução de Justiça, na dependência de quem estiver com a conveniência do cardápio jurídico em mãos. O engano continua certeiro e as decepções se sucedem na cacofonia das idades.

 

Completando próximos dezesseis meses de participação no governo Messias, o ministro Moro pede a sua exoneração em razão das frituras que vinha sofrendo, mas não sem antes fazer uma “delação premiada” de sua atuação ministerial, afirmando ter sido surpreendido pela publicação no Diário Oficial da exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, sem razão ou motivo específico.

 

Afirma textualmente que a exoneração não foi feita "a pedido", conforme publicou o Diário Oficial e nem ele, Moro, assinou esse documento, embora o nome do então ministro apareça na publicação, juntamente com a do presidente; o que minimamente compromete a lisura do ato e caracteriza uma fraude ideológica cometida pela presidência da República. Mas provavelmente algum estagiário perderá a sua bolsa por causa desta traquinagem.

 

O senhor Sérgio Moro ainda afirma que o presidente Bolsonaro admitiu que a mudança do Diretor Geral é uma interferência política, porque pretende ter na Polícia Federal alguém que lhe dê informações sobre investigações e inquéritos, especialmente em trâmite no Supremo Tribunal Federal; uma quase dezena de crimes está inserta nesta declaração. Diz que quando assumiu o posto ministerial Bolsonaro havia prometido "carta-branca" para escolher e nomear auxiliares; isto nunca aconteceu plenamente. O engano continua certeiro e as decepções multiplicam-se na impiedosa realidade.

 

Para não dizer que falou apenas do quintal de seu vizinho presidencial, o demissionário ministro Moro confessou que pediu ao presidente Bolsonaro "uma pensão" a sua família, caso algo de ruim acontecesse com sua pessoa no combate ao crime organizado, uma vez que estaria abrindo mão da previdência da magistratura para assumir o cargo no executivo. Neste instante pode estar imaginando que sua condição de “herói nacional” se transfere por sucessão hereditária.

 

Tratando-se a função ministerial de um cargo comissionado de confiança não há que se pretender “pensão”, ou qualquer outro instrumento assemelhado; ou seria então a prática de peculato, entre outros institutos penais. Mas para quem já recebeu auxílio-moradia com imóvel próprio, a situação se enquadra na lógica da “compensação”, que novamente receberá o silêncio obsequioso merecido por todo “herói”, imaculado e sem falhas morais.

 

No extenso pronunciamento demissionário é interessante destacar as palavras de mea culpa do senhor Sergio Moro no quesito antepassado: “É certo que o governo da época [da ex-presidente Dilma Rousseff] tinha inúmeros defeitos, aqueles crimes gigantescos de corrupção que aconteceram naquela época. Mas foi fundamental a manutenção da autonomia da PF para que fosse possível realizar esse trabalho. (...) O presidente [Bolsonaro] me disse mais de uma vez que queria ter uma pessoa da confiança pessoal dele, que ele pudesse ligar; que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Seja diretor, seja superintendente. E não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. As investigações têm que ser preservadas. Imaginem se, durante a Lava Jato, o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma ficassem ligando para a Polícia Federal em Curitiba para colher informações”.

 

A psicanálise freudiana explicará (mas não justificará) a negação da realidade de uma multidão de pessoas em estado de consciência reprimida, inclusive já eleitores declarados do imaculado herói para as eleições presidenciais de 2022. Permanecerá latente o ímpeto de sacralizar heróis que façam o melhor trabalho sujo possível, que nos envergonhamos de fazer, ou de nos comprometer; continua a imortalização de pessoas e a blindagem conveniente de seus desvios de caráter. O engano permanecerá certo e as decepções se sucederão na história das idades.

 

Márcio Oliveira Elias – Advogado, Professor de Teologia Pastoral. Atua na formação permanente de agentes pastorais e fiéis leigos na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim/ES