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País - Artigo

Lima Barreto, o Rio e as pandemias

Jornal do Brasil LUCIANO ALBERTO DE CASTRO, redacao@jb.com.br

Encaixar um bom assunto para crônica pode ser um martírio para alguns escribas. Dias há em que a crônica "não baixa", escreveu Vinícius de Moraes em 1962. No meu caso, os temas pululam, mas, também se perdem na poeira dos dias. Resolvi colocá-los numa lista. Vi que, após algumas semanas, operava-se a seleção natural. Uma espécie de Darwinismo literário no qual apenas os fortes sobreviviam. Lima Barreto era um desses. Apaixonado pela vida e obra do autor, a ideia de escrever sobre ele se tornara ainda mais forte depois da leitura de Cronista do Rio, a elegante coletânea organizada por Beatriz Resende. Vai ficar pra maio, pensei. É o mês do aniversário de Lima e acho que vai ser mais inspirador, dada a importância do preito. Mas, eis que, em março, a hecatombe microbiológica assola o país.

 

Coronavírus: esse foi o pesadelo que se abateu sobre os povos do planeta nesse ano da graça de 2020. China, Coréia, Itália, Espanha, Estados Unidos, Brasil; um a um, os países foram sendo subjugados pela força descomunal de um ser acelular. Um fragmento de DNA com alto poder de destruição. Mas, o que a pandemia tem a ver com Lima Barreto? Por mais inusitado que pareça, poderia haver aí uma conexão. A gripe espanhola, última grande pandemia mundial, matou 50 milhões de pessoas no mundo. Em 1918, a espanhola chegaria ao Brasil e ao Rio de Lima Barreto, causando quase 15.000 mortes. Algo me intrigava nisso. Com o olhar sempre atento aos acontecimentos da sua cidade, teria Lima Barreto, então com 37 anos, feito referência à terrível pandemia de 1918?

 

Procurei no Google e nada. Em gentil resposta, a professora Beatriz Resende enviou-me email reiterando que desconhecia qualquer menção de Lima sobre a gripe espanhola. Artigos de Lilia Moritz Schwarcz citam diários nos quais, em 1917 e 1918, Lima Barreto estaria “entregue à bebida”, o que o levaria à internação hospitalar em novembro de 1918. Depreende-se que o escritor conviveu com a mortal gripe espanhola. Mais do que isso, sobreviveu a ela. Nos seus delírios etílicos ou nos liames da loucura, ele parece ter transcendido à pandemia. Simbólico. Ainda que não tenha escrito uma linha sobre o tema, Lima Barreto nos lega um ensinamento. Transcender, abstrair-se (não necessariamente com o álcool). Talvez, precisemos, sim, de um ópio que nos alivie tamanha desordem das coisas.

 

Voltemos ao tema principal: Afonso Henriques de Lima Barreto, o descendente de escravos, escritor maldito, o crítico mordaz da política e da sociedade. Teve vida breve (morreu aos 41 anos), mas viveu e escreveu intensamente sobre período único no Brasil: o ocaso do império e o alvorecer da república, ríspida e autoritária. Fato curioso foi que o seu aniversário de 7 anos coincidiu com a data da assinatura da lei áurea. Era o 13 de maio de 1888. Num domingo ensolarado no Rio, o aniversariante fora levado pelo pai ao Largo do Paço (atual Praça XV) para assistir ao momento histórico. Pobre Afonso Henriques. Pobre menino negro que sentiu imensa alegria e teve esperança de um país livre e justo naqueles longínquos “dias de folgança”. Tristezas, infortúnios e contradições marcariam a sua vida e a sua obra originalíssima.

 

No próximo 13 de maio, será aniversário de Afonso Henriques. Entristece constatar que Lima Barreto ainda siga como um proscrito na cidade que ele tanto amou. Procure no mapa do Rio: qual reverência a cidade lhe presta hoje? Onde está o seu nome para que as pessoas lembrem sua existência? Alguma rua do Centro por onde perambulou? Alguma praça que ele pode ter dormido bêbado? Alguma livraria pública? Não, a única Rua Lima Barreto do Rio está em Quintino. A memória do escritor negro continua onde sempre esteve: no subúrbio. Na disputa entre Lima Barreto e os poderosos do seu tempo, eles venceram. Os nomes de Carlos Sampaio, Pereira Passos, Juca Paranhos e de tantos outros nobres, políticos e militares, recheiam as ruas e praças do Centro como uma homenagem tácita ao poder e ao dinheiro.

 

Nesse sombrio e despedaçado abril (Walter Salles, presente!) estamos acuados dentro de casa, com medo de sucumbirmos ao Covid-19. Esse inferno vai passar. Vai levar muitas vidas, mas vai passar. Lembrando de Afonso Henriques e das suas lutas inglórias, vemos que, como outrora, outros males cá persistem na nossa Terra Brasilis: o racismo, o preconceito, a hipocrisia, as convenções sociais, o falso patriotismo verde-amarelo, o entreguismo ao capital norte-americano, a sobreposição do belo ao socialmente justo. Essas são as nossas endemias próprias. Imperioso é reconhecê-las e seguir na luta. Com poucos motivos para comemorar, senão a força da sua arte, grito: parabéns, Afonso Henriques, pelos seus 139 anos e por nos lembrar que essa podridão maquiada existiu, existe e existirá no nosso pujante Brasil republicano

Luciano Alberto de Castro é professor da Universidade Federal de Goiás.