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Solidariedade

Jornal do Brasil CRISTIANA AGUIAR, cristiana.aguiarjc@gmail.com

É tempo de dar-nos as mãos. É tempo de pensar no coletivo, pensar no passado e projetar o futuro. É tempo de sonhar! É tempo de transformação, transformação das relações, da economia. É tempo de novas visões, novos investimentos. É tempo de nos permitir um tempo. Quem sabe dormir um pouco mais, talvez tirar “sonhos” da gaveta. Em tempos de desaceleração, somos mais criativos.

 

Interessante perceber que o caos sempre nos dá essa possibilidade, projetar, desejar, descobrir, redesenhar, reinventar, realinhar. O caos pode ser um salto. Um salto para novas relações de oferta e demanda. Um salto para um Estado mais maduro e responsável. Um salto para empresas mais conscientes e participativas.

 

É tempo de união, onde os que têm mais recursos cedem aos que tem menos em prol do bem maior, a vida! É tempo não apenas de olhar, mas de ver e se engajar. Um exemplo de engajamento foi a atitude da associação Hotéis Rio que mobilizou 2 mil quartos para idosos assintomáticos residentes em comunidades carentes no Rio de Janeiro. Cito também os grandes supermercados que estão comprando direto de pequenos produtores, auxiliando os mesmos no sentido de se organizarem quanto a prazos, custos e qualidade.

 

É tempo não apenas de contabilizar, mas de se doar. Vários empresários estão fazendo um trabalho louvável neste sentido, realizando doações, remanejando custos afim de não comprometer os salários de seus colaboradores, se mobilizando para novas configurações, algumas empresas se uniram para fabricar respiradores aqui no Brasil e 3 bancos privados se uniram para doar tomógrafos.

 

Como suporte a pequenas e médias empresas o BNDES lançou o “Programa Emergencial de Suporte ao Emprego”, visando financiar durante 2 meses a folha de pagamento das empresas inscritas. Para participarem do programa os empresários não poderão demitir funcionários.

 

Ao longo da minha carreira trabalhei muitos anos em empresas familiares e percebi que a maioria delas tem um diferencial importante, a maneira como lidam com conflitos. Muitas vezes alguns empresários se esqueciam que estavam em ambientes corporativos e se tratavam apenas como família, tanto para festejar suas vitórias, quanto para discutirem diferentes pontos de vista, o que não é propriamente um problema se pensarmos em como lidamos com os conflitos da vida. Quanto mais humanizarmos, melhor será. Relações não podem ser padronizadas, relações acontecem entre seres humanos. Somos essencialmente relacionais e é trabalhando as relações que alcançamos os melhores resultados.

 

Saindo um pouco do âmbito das relações entre empregador e empregado, tenho estudado o comportamento de algumas empresas que decidiram investir nas comunidades onde estão instaladas. Sabemos que comunidade tem um sentido muito mais amplo, mas aqui pretendo me ater a comunidade no aspecto geográfico, ou seja, pessoas que moram numa mesma região. Com a revolução industrial, e ao longo dos séculos XVIII e XIX, muitas indústrias e empresas chegavam em uma determinada região e transformavam completamente aquele local. Era necessário que acontecesse desta forma para garantir mão de obra e demanda para comprar os produtos. Hoje em dia muitas empresas ainda têm essa visão, entendem que investir nas comunidades onde estão situadas garantirá uma melhor relação de oferta e demanda. Essa é uma realidade comprovada e indo um pouco além, podemos concluir que empresas éticas contribuem para comunidades mais sustentáveis.

 

Com o cenário atual, indicadores de desempenho da economia apontam os reflexos das paralisações do comércio, serviços e indústria, juntamente com a restrição da circulação das pessoas, trazendo registros de quedas recordes. O nível de utilização da capacidade instalada, segundo estudos da FGV, mostrou uso do parque produtivo em fev/mar de 75,3%, podendo cair ainda mais.

 

Será preciso máxima proatividade. Soluções já utilizadas anteriormente como e-commerce, home office e webinar tomaram novas proporções e se tornaram grandes aliados para vencermos os desafios atuais.

 

Precisaremos também de habilidade nas comunicações. Em se tratando do home office, será necessário um acordo entre o que será cobrado e o que será pago. Empresas e colaboradores terão que acordar o horário de trabalho, se será cobrado horário ou tarefa, se for horário, poderá haver horas extras remuneradas, se for tarefa, o colaborador poderá não estar disponível em um determinado momento durante o horário comercial. Questões de fiscalização, notificação de login, câmera, entre outros, terão que ser comunicados previamente, a fim de evitar processos de invasão de privacidade. Políticas precisarão ser construídas ou revistas, incluindo desde trajes para videoconferências ao o que a empresa deverá pagar com relação a vale refeição, parcela de energia e internet.

 

Muito terá de ser reinventado, lembrando que invenções necessitam de pesquisas e hoje o Brasil é um dos países que mais exportam seus pesquisadores. Quem sabe será reavaliado esse aspecto também.

A palavra de ordem é integração. Quando tudo isso passar, acredito que o vírus deixará uma “sequela”, teremos um legado, um mundo mais holístico, com sociedades mais inclusivas. No caso do Brasil, um olhar mais atento à parcela de mais baixa renda, fazendo com que a mesma seja mais bem assistida, uma vez que representa mais de 50% da população, o que a torna peça de grande relevância para a movimentação da economia.

 

Que haja um bom planejamento para a retomada da economia como um todo. De acordo com algumas pesquisas, se bares, restaurantes, shopping centers abrissem hoje teriam uma demanda bem aquém do desejado. Há indicadores mostrando que as pessoas não voltariam a consumir de forma instantânea, seria necessário informação e estratégia para a demanda voltar gradativamente.

 

A boa notícia é que somos brasileiros e,0 como disse certa vez Louis Armstrong, “músicos não se aposentam, eles param quando não há mais música neles”. No caso do nosso povo, o que não falta é música em nós, portanto não vamos parar em meio aos novos desafios de um estado de calamidade, ao invés de parar, seremos solidários!

Cristiana Aguiar. Economista, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, especialização em Gestão de Pessoas e Equipes pela PUC – RJ, conselheira do Conselho Empresarial de Governança e Compliance da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ e autora de diversos artigos publicados.