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Dias de vinho e rosas

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

"Days of wine and roses" foi composta por Henry Mancini para o filme do mesmo nome, no Brasil rebatizado de “Vício Maldito”. Foi um dos poucos casos, senão o único na história do Oscar, em que os dois protagonistas foram ambos indicados como melhores atores. O ano era 1962 e os atores Jack Lemmon e Lee Remick. Jack Lemmon levou o Oscar, assim como Mancini pela trilha. O filme é consensualmente reconhecido como uma das melhores interpretações de Lemmon e conta a história de um publicitário que mergulha num alcoolismo destruidor juntamente com sua mulher que, inicialmente abstêmia, acaba internada como psicopata devido ao álcool. Amarga história: Lemmon consegue se reabilitar, apesar de de ter sido instrumental na decadência de Remick, louca para sempre.

O filme se tornou um dos clássicos do cinema americano sobre o vício e sobre a importância dos Alcoólatras Anônimos. Gostei do filme. Mas, não ao ponto de me impressionar profundamente como anos antes havia me impressionado com “Farrapo Humano“, de 1946, com Ray Milland, talvez porque as cenas de delirium tremens me assustaram mais que o trem fantasma. Embora lançado em 46, devo ter visto o filme numa reprise nos anos 50 e tantos. No Rian, acho.

Me lembrei de “Days of wine and roses”, porque, deslocada do filme, a música tem um balanço romântico que animou muitas festas dançantes dos anos 60, quando Ray Connif e Mancini, além da nossa orquestra Tabajara, acarinhavam nossos corações enamorados.

Nos tempos que correm, o coronavírus invadiu de tal forma nossa intimidade que num dia como o de hoje - Domingo de Páscoa - nos sentimos, principalmente nós que somos considerados de "alto risco”, como exilados de nossos filhos e netos. E longe, muito longe, da inocência febril da adolescência.

Nos últimos 60 anos, o Domingo de Páscoa sempre foi dia de vinho e rosas, na mesma mesa familiar que acompanhou os risos de nossos avós e, depois da partida deles, a balbúrdia de nossos filhos e netos.

Hoje, os cidadãos de alto risco hão de curtir companhias que, embora queridas, terão, por mais que nisso não queiramos pensar, o dom de nos recordar estarmos órfãos de filhos e netos.

Sim, podemos falar e até nos vermos pela tecnologia dos computadores e da internet. Mas, que triste não receber aqueles beijos ainda que rápidos de nossos netos curiosos de saber se os avós esconderam os ovos da Páscoa e se a vovó fez a torta de banana do Pedrinho, o brigadeiro da Clarinha e se o cachorrinho Mingau, de quem a neta caçula jamais se separa, terá direito a um pedaço de bolo de fubá.

E os filhos, marmanjões que se acreditam distantes destes sentimentos infantis, deixam sempre entrever, depois de um copo a mais de vinho, num olhar melancólico diante da mãe, uma nostalgia dos tempos passados e uma certa angústia dos tempos futuros, por não saberem se na próxima Páscoa ainda estaremos entrelaçados nesta aparentemente eterna familiaridade.

Mas, hoje, a dois beberemos nosso vinho sozinhos. Fingindo de austeros e indiferentes ao passar das horas, mas com uma secreta esperança de que a campainha vá tocar e o apartamento será invadido por gargalhadas e corridas de crianças. Mas…

Veremos um programa qualquer, qualquer coisa que não nos lembre este vírus anarquista e letal. Talvez, quem sabe, colocaremos o DVD do Dom Quixote, com o sempre insuperável Nureyev e Yoko Morishita. Ou vejamos um filme francês dos tempos da nouvelle vague, como “Pierrot le Fou” ou o adocicado “Um homem e uma mulher” com os então jovens Trintignant e Anouk Aimée e aquele espetacular Mustang descrevendo hipérboles nas areias das praias da Normandia. Melhor que isso só “Les choses de la vie“ com Romy Schneider e Michel Piccoli. Ou “A Filha de Ryan”, com Robert Mitchum e Sarah Miles. E continuaremos a reler o “Continente" de Ërico Verissimo e “Arroz de Palma”, de meu colega Francisco Azevedo

Bem mais tarde à noite, talvez a gente tome uma canjica a lembrar nossos avós que viveram a gripe espanhola e nos contaram histórias que no passado nos pareceram exageradas e que de qualquer forma nunca nos atingiriam.

Apagaremos as luzes vendo pelas janelas as ruas estranhamente desertas, como se a Peste nos tivesse definitivamente vencido e sentiremos o hálito fétido de sua mensagem de morte. Sem mencionar um ao outro nossa angústia, nos lembraremos da paisagem impensável da Praça de São Pedro em Roma, vazia, os campanários de suas Igrejas emudecidos como diante de um exército invasor e sanguinário.

E Brasilia, erigida como marco da modernidade e que com JK foi símbolo de um Brasil renascido, hoje é palco do medievo reacionário e negacionista, onde o Imperador Incitatus, passeia com sua tropa Ignoramus num festival reverencial ao Inferno nesta e na outra vida.

E iremos dormir temerosos, sem saber se desta noite um dia ressuscitaremos.

*Embaixador aposentado