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"Quem não luta tá morto!"

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

Em meio à pandemia e a tantas notícias tristes, histórias de força, luta e solidariedade têm servido de alento dentro do caos. Em meio ao aumento de casos de violência doméstica relatados praticamente todos os dias pelos meios de comunicação, campanhas de acolhimento e apoio às vítimas surgem pela iniciativa de outras mulheres, que se arregimentam pelas redes sociais. Em meio às medidas calculadas pelo governo federal para salvar os empresários e dificultar – ainda mais – a vida do trabalhador e trabalhadora, que vê a sua renda reduzida e a comida começar a faltar em casa, pessoas de diferentes idades, profissões e classes sociais se unem em uma rede de solidariedade e responsabilidade social para arrecadar alimentos e produtos de limpeza para moradores de ocupações – aquelas mesmas que são criminalizadas por quem nunca morou na rua ou precisou se preocupar se terá dinheiro para o aluguel do mês seguinte.

“Quem não luta tá morto”. Há pouco mais de um mês conheci a Ocupação Mauá, no centro de São Paulo, liderada, entre outros coordenadores de movimentos sociais, por Ivaneti Araujo, que transformou essa frase em grito de luta dos moradores da ocupação e a quem peço licença para usá-la no título deste artigo. Ela me explicou que a frase lhe foi dita por um advogado do movimento, logo após a perda na justiça do direito a ocupar um imóvel. Desde então, Neti – como é conhecida – adotou o pequeno e assertivo texto como palavra de ordem nos encontros do Movimento por Moradia na Luta por Justiça, o MMLJ, que faz parte da coordenação da Ocupação Mauá. “A frase é dita com o punho esquerdo – que é o do lado do coração – levantado, para dar força”, explica, com o sorriso de quem superou momentos de sua biografia como morar na rua e em um cortiço com os filhos.

A Ocupação Mauá é formada por 230 famílias, tem uma organização e administração próprias, em que todos e todas colaboram para que não falte nada a ninguém. A liderança da Neti fica clara a cada cumprimento que recebe dos moradores e a cada orientação dada por ela. Com a pandemia, uma rede de apoio e arrecadação ajuda as famílias, muitas formadas por trabalhadores informais, a atravessar e cumprir o isolamento social.

Embora o vírus siga a se espalhar por pessoas de todas as faixas etárias, os idosos ainda formam o maior grupo de risco. A antropóloga Mirian Goldenberg, que tem se dedicado a estudar e espalhar a felicidade entre aqueles que já estão acima dos sessenta, escreveu um artigo para o jornal Folha de S Paulo em que pergunta a todos nós: “você já ligou para os seus amigos e parentes mais velhos hoje?” E você, já ligou? Já deu risada com eles hoje? Corre lá. Ainda dá tempo.

E já que estamos falando de solidariedade, e sabemos que a violência doméstica está por aí a nos rondar e amedrontar, cito aqui a iniciativa do projeto denominado criativamente de “Justiceiras”, uma força-tarefa de mulheres voluntárias, que oferece orientação jurídica, psicológica, entre outras especialidades, para acolher vítimas. Criado pelo Instituto Justiça de Saia, liderado pela promotora de Justiça Gabriela Manssur, o projeto disponibiliza o número de whatsapp 11-99639-1212, para que as mulheres façam um cadastro e peçam ajuda por mensagem.

Iniciativas não faltam para que nos apoiemos e passemos vivos por este momento. O desafio é: fique em casa, mas acolha quem precisa.

Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.