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País - Artigo

Turbulência e Truculência

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

A epidemia do coronavirus é uma turbulência . A tentativa de responsabilizar o Congresso e o Supremo pelos fracassos óbvios do governo é uma truculência. Há momentos em que os dois fenômenos convergem e se minimiza a truculência diante da turbulência. Em que se responsabiliza a turbulência pelo descalabro da truculência. Trata-se de erro primário, na maioria das vezes. Mas, pode revelar uma astúcia política, relatada "ad nauseam" em manuais de golpe de Estado tanto em regimes de direita quanto de esquerda. Basta recordar o Nazismo de um lado e o Stalinismo de outro.

Que há turbulência no mundo não se discute. Que haja truculência no Brasil parece ainda um"blip" no radar. No momento em que escrevo são unânimes o respeito e a gratidão do povo brasileiro, pois o ministro Mandetta se conduz como se espera que se conduzam as altas autoridades do governo: transparente, consciente dos riscos da turbulência e engajado em sua tarefa de garantir a toda a população o amparo do Estado diante da ameaça que se espraia em países ricos ou pobres. Um ponto de inquestionável tranquilidade e de responsabilidade do governo atual. Que assim continue. E que desta forma, unidos, sociedade e governo possamos atravessar com racionalidade e solidariedade um desafio maior de nossa saúde pública.

Em livro ainda não traduzido para o português com título inglês de “The narrow corridor” (o corredor estreito ) Acemoglu e Robinson, que já nos presentearam com um outro livro seminal “Por que as nações fracassam” examinam agora o conflito entre autoritarismo e liberdade em diversas fases da história do homem neste planeta. "Corredor estreito” - se pudesse resumí-lo sem mutilá-lo- descreve a estreita faixa ou corredor de que dispomos para viver em harmonia entre o Estado e a sociedade, sem que nenhuma das partes sucumba seja ao autoritarismo de um seja ao liberticídio de outra.

No Brasil, nos últimos 31 anos, com a redemocratização do país e com a proclamação da Constituição de 1988, soubemos navegar adequadamente no estreito corredor ainda que com dois impedimentos de presidentes eleitos. Em nenhum desses momentos houve fechamento do Congresso ou arbitrariedades que nos remetessem para o rol de países-párias.

Nos últimos meses nosso corredor vem-se estreitando de forma angustiante. O ódio político que se entranhou em nosso tecido social se espraia e lamentavelmente tende a se aprofundar. Os recentes movimentos de revisão salarial por corporações identificadas constitucionalmente com a manutenção da ordem e da segurança públicas desbordaram para o desequilíbrio de forças, para a violência, ameaçaram a paz e a rotina de cidades e colocaram em campos de desinteligência autoridades e preceitos constitucionais.

Do episódio, contornado, mas que deixa sementes daninhas não erradicadas, surge a perigosa tentativa de atribuir culpas a hipotéticos canibalismos institucionais ou negligências do espírito público.

Se a este terreno já imensamente tectônico acrescentarmos as reivindicações que começam a surgir em função da turbulência do coronavírus - como as incipientes reivindicações de que o governo deveria reduzir impostos e promover franquias para empresas que perdem mercado - adentramos o perigoso e desestabilizador confluente que assinalei acima entre turbulência e truculência. Talvez, e ao contrário do que se propõe com mão de gato, se devesse proceder a um exame desapaixonado da política econômica em vigor, notável por cortes de gastos sociais que aprofundam a miséria, aumentam o desemprego e reduzem a renda das famílias.

Ë hora de olhar para Keynes e não para Friedman. Para Roosevelt e não para Stalin.

Insistir em reformas que alarguem ainda mais o desnível social no Brasil — e esta é uma responsabilidade conjunta do Executivo, do Legislativo e da sociedade— nos levará para fora do corredor estreito.

Em direção ao túnel da mais abjeta servidão.

*Embaixador aposentado