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País - Artigo

A encruzilhada da cidadania 2

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Em 1961, Jânio Quadros saiu de cena num gesto dramático que quase nos levou à guerra civil. Em 1992, Fernando Collor renunciou diante do impeachment previsível. Tanto um quanto o outro foram eleitos como salvadores da Pátria, homens tocados pela mão divina da incorruptibilidade. Ambos tentaram governar sem o Congresso Nacional.

Entre os dois tivemos 25 anos de ditadura militar, também saudada como saneadora dos costumes, que se esborrachou no quase morticínio do Riocentro. Minha geração completa 80 anos de vida neste 2020 e pensava ter visto de tudo no picadeiro político deste país. Os eventos das últimas semanas nos fizeram corar como coroinhas a contemplar o cura cuspindo na cruz.

Aos poucos, mas em garfadas leoninas, tenta-se confundir um país perplexo e um povo paralisado com sugestões que beiram o crime de lesa-pátria e induzem o ódio entre ricos e pobres. A possibilidade de um esquartejamento do Estado Democrático de Direito é fomentada por quem foi eleito de acordo com a Constituição brasileira e, diante de Deus e dos homens, jurou respeitá-la em sessão solene do Congresso.

Minha geração nunca viu e muito menos elegeu uma equipe tão toscamente educada para conduzir um país como o nosso. Nunca este país se prestou tanto ao ridículo quanto à censura de nossos aliados e parceiros. Nunca nos havíamos tornado, nem nos anos de chumbo da ditadura militar, uma escória do mundo civilizado, onde nossas maiores autoridades não nos poupam um linguajar de esgoto e um gestual de lupanar. Diariamente, sem qualquer respeito por famílias que votaram confiantes de que os rituais da boa convivência e da civilidade presidiriam os atos e as palavras dos que alardeavam serem honrados e disciplinados pela escola militar.

Nunca nossa política externa - mesmo a da ditadura militar - cometeu tantos desatinos, envergonhou nosso histórico de país sensato e admirado pela comunidade internacional como a de um chanceler prepotente e pretensioso que, em seu discurso de posse diante do corpo diplomático sediado em Brasília, tem o desplante de afirmar que o Itamaraty sempre esteve de costas para o Brasil. Nisto teve pleno sucesso : hoje é o mundo que está de costas para o Brasil.

Nunca tivemos um ministro da economia que se assenhorou de tantas competências com tamanha incompetência, a não ser a de promover reformas que subtraem direitos e renda de assalariados sem tocar nos lucros abusivos de bancos e na onipresente disparidade social. O gestor de uma política fiscal que em pouco mais de um ano derreteu 25 bilhões de dólares de nossas reservas externas. E promete vender com urgência os ativos do Estado, construídos ao longo de quase um centenário.

Nunca tivemos uma política ambiental que detesta o meio ambiente e descrê das mudanças climáticas apesar das enchentes que diluem nossas cidades. Nunca tivemos uma política indigenista tão distante do Marechal Rondon que aprendi a reverenciar na minha juventude.

Enfim, nunca tivemos tanto horror de nossa cidadania. Nunca tivemos tanta ignorância a presidir nossa educação . Nosso ministro da Educação nos assusta com suas platitudes e gracinhas de boboca do quarteirão. Para completar, nosso sábio e arrogante ministro da economia quer fundir as dotações orçamentárias para educação e saúde numa alquimia de Drácula, onde sobrará apenas cupidez e sangue.

Nossa política de educação sexual propõe alternativas sabidamente errôneas e tingidas de uma religiosidade nem sempre livremente aceita. O Estado matreiramente abandona o princípio básico da separação entre o que é de César e o que é de Deus, confundindo os tementes e os crédulos com previsões apocalípticas para nosso futuro como povo e civilização.

E nosso destino histórico ameaça ser o do eterno retorno a regimes autoritários amparado por forças que já foram chamadas de ocultas ou terríveis, mas que sempre estão associadas à cupidez argentária, a ideologias desagregadoras da soberania nacional e cúmplices do atraso e da miséria de nosso povo.

Um povo a que se nega até mesmo o direito constitucional ao trabalho, à educação

e saúde e , desta forma, é condenado à eterna maquinação de eleger fadas madrinhas e piratas da perna de pau. De olho de vidro. E da cara de mau. Uma sina. Uma pena.

Uma maldição da qual só nos livraremos quando voltarmos a votar em gente de carne e osso. E não em supostos deuses e profetas da anarquia. Nosso destino como nação depende de assumirmos com coragem e determinação o espaço compatível com o tamanho de nosso território e com as características de sermos, juntamente com apenas outros quatro países deste planeta, destinados a ocupar a vanguarda dos líderes deste século.

O combate à fome, mortalidade infantil, o investimento em programas educacionais da infância à universidade são prioridades inscritas em nossa Constituição e devem ser o norte de todos os que elegermos para nos servir como gestores de nosso patrimônio. As ideologias do pessimismo, do servilismo a Estados mais poderosos do que nós não deveriam merecer nem atenção nem respeito. Nada se fará sem a confiança em nossa força e nossa determinação.

Seria justo recordar nesta hora de trevas que atravessamos as lições que nos deixou um dos maiores presidentes do século XX, que tive a honra de apertar a mão. Conheci JK quando adolescente e ele começava sua campanha eleitoral. Assisti penalizado sua ida para um exílio imerecido, arbitrário e injusto como infelizmente só se reconheceu depois de sua morte.

Juscelino nos inspirou não só pelas obras que nos deixou, pelo Brasil revigorado que construiu, mas também pela confiança na inteligência do candango que modelou Brasília e na visão que nos fez marchar para o Oeste e transformar nosso cerrado num dos maiores celeiros mundiais.

Sobretudo devemos a ele o exemplo do Estadista exemplar, do democrata autêntico que governou este país com o sorriso da cordialidade e o entusiasmo de acreditar em um futuro que infelizmente não é este lodaçal de frustrações e ameaças de rupturas do tecido social com que tisnamos nossos jovens de hoje.

Este ano voltaremos às urnas. Saibamos o que fazer.

Adhemar Bahadian é embaixador aposentado.