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Qual é o seu projeto?

Jornal do Brasil CRISTIANA AGUIAR, cristiana.aguiarjc@gmail.com

Há alguns anos atrás decidi voltar a estudar e fazer um curso relacionado à minha graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para minha surpresa, ao entrar na sala de aula, percebi o comportamento dos jovens alunos muito diferente do comportamento dos meus amigos na época da minha universidade. Os alunos daquele curso iam de chinelos, colocavam os pés sobre as cadeiras da frente (o que a princípio poderia ser apenas uma maneira mais descontraída de estudar), mas o que me chamava mais a atenção era a forma como eles se relacionavam com os professores e mestres. Eles já chegavam na sala de aula com as perguntas e pesquisas realizadas antecipadamente e os professores eram desafiados a responder “na ponta da língua”, imediatamente, aquelas indagações. Alguns deles não tinham uma atitude fundada num objetivo de querer aprender ou tirar eventuais dúvidas e sim de testar o conhecimento de alguém que ocupava uma posição de liderança naquele momento.

Quando olho para o mundo corporativo vejo muitas pessoas com essa mesma atitude, a atitude intencional de “desafiar o mestre”.

Existe uma diferença básica entre liderar e gerenciar. A liderança necessariamente vem primeiro. Ela lida com os objetivos, o norte, a bússola. Determina e explica onde estamos e onde queremos e devemos chegar. O gerenciamento é a visão da metodologia, qual o melhor processo a ser utilizado para alcançar determinados objetivos, quais os procedimentos a serem adotados, como implementar regras e controles, etc.

Stephen Covey ao explicar essa diferença em um de seus livros usou a analogia de uma pessoa subindo em uma escada. Imagine que você está subindo uma escada rumo ao sucesso. Durante esse percurso naturalmente terá que abrir mão de algumas coisas valorosas para você, porém secundárias quando equiparadas com o seu objetivo final. Com o passar do tempo, você finalmente chega ao topo e então se depara com o que na verdade nunca se atentou, a escada estava apoiada na parede errada. O líder tem sempre que estar de olho na parede, ele precisa saber onde vai chegar, já os gerentes, cuidam de todo o processo.

Os líderes mais do que nunca nos dias de hoje precisam tomar decisões rápidas, criativas e inteligentes. Eles precisam verificar se “a parede está correta”. O problema é que por vezes a direção muda e os gerentes que estão no meio da execução ou quase no final, não entendem ou não gostam de mudar o rumo do trabalho. É mais fácil criticar o líder.

 

Um outro agravante são as diferentes formas de linguagem. Existem cerca de 6900 idiomas em todo o mundo. Dentre os mais falados estão: mandarim, espanhol, inglês, hindi, árabe e português. Teoricamente, muitos falam a nossa língua, mas nem todos entendem a nossa linguagem. Há uma dificuldade em atingirmos objetivos por conta das diferentes formas de nos expressarmos e interpretarmos as coisas. Como disse certa vez o diplomata suíço Karl Luntz: “ Comunicação não é o que você diz, é o que o outro ouve".

 

Não preciso citar estatísticas para indicar a vaidade como um dos piores fatores que atrapalham a comunicação entre líderes e liderados. Segundo pesquisa feita pelo The State of Moral Leadership in business em 2018, 83% dos funcionários acreditam que suas organizações tomariam melhores decisões se elas seguissem a seguinte regra: faça aos outros o que gostaria que fizessem a você, além disso, essa mesma organização constatou em pesquisa que gerentes que não fazem perguntas sobre o certo e o errado são 14 vezes mais propensos a falhar. Precisamos cada dia mais da ótica das mãos unidas e para isso é fundamental entendermos qual o nosso papel no objetivo final.

 

Os líderes precisam transmitir claramente para os seus liderados os objetivos e razões de eventuais mudanças, enquanto que seus liderados precisam mostrar os esforços, custos e processos que irão atravessar com tais solicitações. Lembrando que um bom planejamento sempre evitará desperdício de tempo. Projetos bem-sucedidos costumam nascer nos sonhos, nas idealizações, nos esboços, nos desenhos, nos relatórios e então depois são realizados. Primeiro desenhamos a planta, depois construímos a casa.

Uma ferramenta que contribui muito na execução de um projeto é o modelo 3C de colaboração, baseado na compreensão de que comunicação, coordenação e cooperação são indispensáveis para que haja bom êxito.

 

Cito como exemplo um projeto que considero excelente em nosso país. É um projeto do Governo, através do Ministro da Ciência e Tecnologia Marcos Pontes em parceria com o Exército brasileiro. Trata-se de um programa de interligação via internet através de rios. Toda a região da Amazônia, inclusive territórios indígenas, terão conexão direta com o mundo. Interligação entre cidades através de fibra ótica pelos oceanos é comum nos dias de hoje, no entanto, interligação entre municípios através de fibra ótica em rios, ainda se tratando da Amazônia, neste caso especificamente, estamos diante do maior lançamento em rios desse tipo de cabo. Esse projeto visa conectar aproximadamente 52 municípios amazonenses. Parabenizo os participantes do projeto Amazônia Conectada!

 

Sem dúvida alguma esse é um projeto onde a comunicação entre os diversos envolvidos deu certo.

Finalizo recordando a entrevista de um dos participantes dizendo que se orgulha desse projeto por poder passar essa experiência para seus filhos e netos. Que possamos dar atenção na vida para o que realmente importa!

Cristiana Aguiar é Economista, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, especialização em Gestão de Pessoas e Equipes pela PUC – RJ, conselheira do Conselho Empresarial de Governança e Compliance da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ e autora de diversos artigos publicados.