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País - Artigo

Nancy Pelosi e autoritarismo

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Deputados dos Estados Unidos, jogou Trump e sua ridícula performance onde mereciam: a lixeira. Mais do que sua imagem determinada a rasgar o discurso de Trump diante de milhões na América e no mundo, ficará sempre em nossas memórias o gesto de repulsa à transformação do Congresso americano em palanque eleitoral do autoritarismo.

Trump desfigurou a América. Desnudou despudorado seu arrogante autoritarismo, sua descarada destruição das regras do comércio internacional, seu intuito de fazer dos princípios democráticos e de liberdade uma caricatura nauseante de intimidação e ameaças. A aliados, a adversários e a todos quantos se rebelarem contra o projeto de Mussolinis em ascensão.

Nancy Pelosi defendeu a dignidade de um Congresso dividido, mas ainda não acorrentado. Rejeitou o teatro de vaidade e mesquinharia de um óbvio mistificador, de um solerte manipulador da realidade, de um presidente maquiavélico empenhado em aprofundar divisões entre brancos e pretos, entre imigrantes e nacionais entre pacifistas e ensandecidos deuses da guerra. Entre super-pobres e super-ricos. Entre Deus e o Diabo.

Para os que vivemos por razões profissionais nos Estados Unidos da América em anos em que Martin Luther King tinha sonhos de igualdade e fraternidade para uma sociedade dividida pela Guerra do Vietnam e pelo racismo impiedoso, o espetáculo de Trump a defender muros em torno da América, a ameaçar com destruição povos e países, o espectro de um Estados Unidos totalitário pela primeira vez se torna uma realidade próxima e possível. Um pesadelo impensável. Uma fantasia delirante tornada viável na linguagem e nos ademanes de um bufão estranhamente solto e admirado.

Nancy Pelosi entrou para a história com seu gesto digno de quem afugenta de sua casa os vermes de uma regressão histórica do país com os mais belos frutos da Democracia e da liberdade. Uma grande mulher.

Do outro lado do mundo, um jovem oftalmologista chinês percebe que seus pacientes sofrem de uma infecção atípica e divulga seus achados e preocupações entre a comunidade médica da segunda maior economia do mundo. Em resposta a seus cuidados, trogloditas do aparelho policial fazem-no uma visita amigável e o obrigam a por escrito retratar-se por ter disseminado notícias alarmantes capazes de levar pânico a seu povo ordeiro. Li Wenliang obedece como sempre devem obedecer os cidadãos de estados totalitários. Poucos dias depois, as autoridades chinesas colocam em quarentena cidades tão grandes como São Paulo e plantam hospitais no prazo assustador de dez dias. Tivesse a advertência de Li Wenliang sido ouvida em clima mais aberto, sem medos de repercussões absurdas no mundo científico, talvez muitas vidas tivessem sido poupadas, inclusive a do próprio Li.

Mas,no mundo dos autoritarismos sejam os desejados por Trump sejam os vividos por déspotas, as verdades devem ser substituídas por “fake news” e os cidadãos inoculados com soros diários de mentiras e falácias. É da natureza dos homens predestinados, dos ditadores, dos religiosos fanáticos. Dos corruptos, públicos ou privados.

Mas, às vezes, a verdade se impõe contra censuras e tecnologias do controle social. E como no belo poema de João Cabral de Melo Neto, o canto de um galo é retomado por outro galo, o deste por um terceiro e um quarto até que toda a manhã desperte para um novo dia. Na China de Li Wenling sua morte acendeu o apitaço incômodo a alertar que na epidemia do vírus, a letalidade da mentira poderia ser mais devastadora para o futuro de nossas vidas mesquinhas e apequenadas pelos que nos deviam servir.

E como o bater de asas de um pássaro na China pode provocar um vendaval em outros cantos do planeta, aqui no Brasil também tivemos nossos sopros autoritários.

Bom será recordar que vivemos esta semana discretamente maravilhados com a performance de nosso ministro da Saúde, Mandetta, que se mostrou equilibrado e ponderado diante do legítimo temor de um vírus ameaçador. Calmo e competente Sua Excelência articulou em poucos dias uma corrente de ação envolvendo secretários de Saúde dos estados federados numa demonstração que podemos trabalhar juntos sem roncos desafinados de cuícas ideológicas.

Organizou um sistema de alerta e acompanhamento do vírus em nosso país que envolveu milhares de funcionários públicos, inclusive com a colaboração discreta dos militares - que por serem militares não deixam de ser servidores públicos - que muito terá sido apreciada e notada como o ponto maior deste governo.

Mas durou pouco nosso encantamento. Ao falar na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, nosso ministro da economia, sempre canhestro tanto em política quanto em economia, lançou a vituperação inesperada em que comparou os servidores públicos a parasitas. Posteriormente, numa desculpa autoritária esfarrapada, argumentou que a imprensa, este vírus pandêmico, havia citado suas declarações fora de contexto.

Que falta faz nestas horas uma Nancy Pelosi.

*Embaixador aposentado