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País - Artigo

Deboches e Desrespeitos

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Seis milhões de jovens se apresentaram para as provas do Enem. Se consideramos que cada um deles, entre pais, irmãos e avós, tenha uma família de mais cinco pessoas, o universo emocional do Enem chega a duas vezes a população do Chile.

O Enem completa 20 anos. Racionalizou em muito o ingresso de jovens nas universidades públicas e em algumas universidades privadas. No meu tempo - nos idos de 1959-1960 do século passado - o vestibular era uma via-crucis. Cada universidade exigia uma seleção própria e não era raro o estudante fazer prova de matemática de manhã no Rio de Janeiro e de química à tarde em Niterói. E ser reprovado nas duas.

A indústria do vestibular exigia cursos particulares preparatórios caros e certamente discriminava entre famílias com maior ou menor poder aquisitivo. Sempre foi um sistema desgastante para filhos e pais. Nossas avós rezavam, nossas mães reforçavam o feijão, nossos pais refaziam contas.

O Enem corrigiu muitas distorções e tornou o acesso ao ensino superior mais democrático e mais integrado com a realidade do ensino médio. Não é um sistema perfeito, mas no decurso de 20 anos jamais vimos se prestar ao triste papel a que se prestou neste ano de 2020.

Sequer se pode falar que o governo com ele não se tenha preocupado. Ao contrário, o próprio presidente da República alertou que o exame continha distorções ideológicas e deveria portanto ser saneado dessas impurezas. Prometeu-se um exame exemplar, desvinculado de concepções educacionais esdrúxulas.

Embora os ministros de educação escolhidos para esta e outras nobres tarefas logo se mostrassem um, exótico no pensar, e outro, ridículo nas aparições públicas e capenga no domínio do português falado e sobretudo escrito. Ao que se sabe, profissionais experientes do Inep foram afastados de suas funções em nome da nova ordem. A exemplo do que se fez no Ibama.

Até hoje, não se conhece o plano diretor da educação no Brasil. Ouvimos impropérios contra livros didáticos e contra educadores reconhecidos internacionalmente. Fora isso, apenas imitações aparvalhadas de Gene Kelly e críticas nada construtivas sobre nossas universidades, nossos centros de excelência. Um circo mambembe, sem graça, quase funéreo.

A pajelança ocorrida nas correções da prova do Enem escancarou, além da incompetência e da incúria, um deboche aos estudantes e um desrespeito a suas famílias. Na hora mais crucial da vida de um adolescente, o ministro dito da educação levanta suspeitas sobre o direito de explicações solicitadas por estudantes visivelmente prejudicados em suas aspirações escolares. Aduz, num gesto de insanidade politica, que talvez os reclamantes nada mais fossem do que terroristas ou membros de partidos da extrema esquerda.

Já havíamos anteriormente nos exposto ao ridículo internacional com nossa inepta politica sobre o meio ambiente, com riscos graves para a exportação do agronegócio. Certamente com os sucessivos coices que recentemente a sociedade brasileira recebeu na área educacional e cultural nossa imagem no clube da OCDE - a que tanto aspiramos pertencer - perderá pontos essenciais no quesito grau civilizacional. Nada porém que nos impeça de finalmente ingressar no clubinho, pois o preço que pagaremos pela honraria muito agradará os exportadores de bens, serviços e capital dos países desenvolvidos.

Que o diga o trombeteado acordo sobre compras governamentais que nosso ministro da economia, ignorando como de hábito o Congresso Nacional, garantiu ser favas contadas no Brasil. Agora virou praxe a sociedade brasileira saber o que lhe desaba sobre a cabeça pelo noticiário internacional. Não deixa de ser uma forma de pressionar os incautos com a falsa repercussão internacional dos malabarismos de nosso arrogante posto Ipiranga. Se o Brasil se desenvolvesse no ritmo das promessas de nosso ministro, já teríamos alcançado a China. Acredita em lorota quem bem quiser.

 

Chama a atenção do observador mais desavisado o estado lamentável de nossa sociedade após um ano de governo instalado com o mantra da sanidade cívica. Perdemos o pudor do convívio incivil. Nossas maiores autoridades tratam e distratam como se estivéssemos numa rixa de lupanar.

 

Há uma quase cotidiana acusação ao serviço público e nada pode ser mais deletério a um funcionário zeloso do que saber que seu trabalho não é valorizado, que seu emprego está ameaçado por uma iminente privatização. Desta forma, os serviços públicos realmente se deterioram pela falta de estímulo, pelas ameaças de demissões ou pelo simples afastamento oficioso de funções .

 

Talvez o desprezo com o meio ambiente, a indiferença com a mortalidade infantil, a irresistível e cotidiana cantilena de que nosso crescimento econômico tem como compositor um ideólogo do ultraliberalismo, o mais desumano e mais anti-social que jamais conhecemos, expliquem esse ar crepuscular com que andamos em nossas cidades, meio alheios e meio cegos diante da erva daninha da miséria humana que se espraia pelas marquises de nossos museus e lojas comerciais nem bem o sol se põe.

Há uma sensação de medo latente, um odor de podridão nas águas do Rio de Janeiro, um pavor de saber que bebemos e comemos o vírus que nos corroerá as entranhas.

E por mais que disfarcemos, por mais que acreditemos em melhores dias, na intimidade de nossas consciências não nos perdoamos o impulso raivoso que nos fez entrar nas cabines eleitorais com a sede de vingança que paralisou nossa inteligência. E nos fez disparar uma bala perdida.