Jornal do Brasil

País - Artigo

Um fenômeno de longa duração

Jornal do Brasil TARCISIO PADILHA JUNIOR, tarcisiopadilhajunior@yahoo.com.br

O juiz instaura uma justa distância entre o culpado e a vítima, mesmo se levar em conta circunstâncias atenuantes. Dentre as circunstâncias, vão figurar influências, pressões, coerções; em segundo plano, grandes desordens da sociedade.

Sentenças proferidas em grandes processos criminais da segunda metade do século XX, como Nuremberg, visam à memória coletiva. Daí o processo dar visibilidade aos acontecimentos que ele reencena num palco acessível ao público.

Os momentos que compõem essa história foram testemunhados por homens e mulheres que ainda vivem entre nós. Essencialmente no caminho da recordação e do reconhecimento, o testemunho não é considerado enquanto proferido por alguém para ser colhido por outro, mas enquanto recebido por mim a título de informação sobre o passado.

O que faz a instituição é de início a estabilidade do testemunho pronto a ser reiterado; em seguida a contribuição da confiabilidade de cada testemunho à segurança do vínculo social, na medida em que este repousa na palavra de outrem.

A troca recíproca consolida o sentimento de existir em meio aos outros, homens e mulheres, gosta de dizer Hannah Arendt.

Mesmo quando a história se esforça por embaralhar acontecimentos, é possível tratar adequadamente sua duração. O campo político oferece terreno favorável à exploração regrada de fenômenos que se reproduzem - como o autoritarismo.

Um fenômeno de longa duração, pela narrativa se transforma em condição de possibilidade do acontecimento no País.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)