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País - Artigo

O país das maravilhas

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

A sabedoria popular é taxativa: em rio de piranhas, macaco bebe água de canudinho. Não sei como se estão virando os macaquinhos do Guandu, pois o canudinho virou um dos maiores poluentes do meio ambiente.

Nós, os desavisados de sempre, sequer fomos informados de que havia algo de errado com a água potável . O silêncio de nossas autoridades só foi rompido quando os casos de disenteria se tornaram tão evidentes que seria desfaçatez maior negá-los. Mesmo assim, nossas autoridades se manifestaram de forma solerte e como se falassem a um bando de idiotas e não a cidadãos em dia com seus impostos e taxas exigidos por municípios e estados da federação. Vivemos num país de cínicos. Se a água está turva, a culpa é do encanamento de nossas residências, mesmo aquelas recém-construídas.

Após as notícias inverídicas, aparentemente surgem no Brasil os delírios coletivos da população. Nossas autoridades e seus economistas estão convencidas de que sofremos de uma moléstia grave, praticamente incurável denominada desconfiança mórbida no governo (DMG),popularmente conhecida como Deus me guarde.

 

Por mais que o preço da carne continue subindo nos super-mercados, por mais que os índices de crescimento econômico sejam pífios, por mais que o desemprego mantenha níveis estratoféricos, por mais que as filas diante dos postos do INPS se alonguem por quarteirões, por mais que os hospitais do SUS estejam aos cacarecos, nossas autoridades insistem em dizer que estamos melhorando em todos os sentidos, que vamos melhorar mais ainda e apenas a histórica má-vontade com o governo explica tanta rebeldia e insatisfação. Coadjuvada pela imprensa sensacionalista, claro.

 

Somos certamente um país de ingratos. Nosso posto Ipiranga , com sua desenvoltura e arrogância habituais, nos promete novas reformas para este ano. Dentre elas, avulta a reforma tributária destinada a melhorar em muito o cotidiano da classe média. As tentativas de subtrair direitos constitucionais das classes pobres já teriam chegado ao limite do imaginável . A última delas, no por do sol de 2019, teve a engenhosa idéia de aplicar no auxilio- desemprego uma mordida de tubarões e transferir o bocado para um hipotético programa de primeiro emprego dos mais jovens. A manobra, imoral antes de desonesta, foi abortada para tristeza de seus geniais proponentes refastelados no recesso de seus laboratórios de ratinhos satânicos.

 

A máquina ceifadora de Paulo Guedes se volta agora para a classe média. Com especial carinho para os aposentados, os idosos e os servidores públicos. As recentes declarações de Sua Excelência não deixam dúvidas de que as despesas com saúde da classe média sofrerão um impacto de proporções consideráveis. Argumenta nosso iluminado ministro que as despesas médicas não mais poderão ser abatidas do imposto de renda. Simples, não? Por quê não se pensou nisto antes? Certamente, o ministro não ignora - acho que não ignora nada, exceto os direitos fundamentais do cidadão, inscritos em nossa Constituição - que os principais prejudicados serão as crianças, os idosos e os aposentados. Imagine você não mais poder abater do imposto de renda a cirurgia que lhe custou o equivalente a três meses de renda.

 

Em contrapartida, o ministro finge não ver o movimento das seguradoras privadas de saúde a alterar as regras de reembolso de despesas médicas e até mesmo pretender excluir doenças cosméticas ,como o câncer, da lista de coberturas obrigatórias. Não é um doce, o nosso ministro?

 

Seria injusto porém imaginar que ele não pense no social. Mais de uma vez, nos tem advertido que taxar o lucro de dividendos distribuídos por empresas poderá afastar o investimento privado, embora seja tributo aceito no mundo todo. O fato de que nos últimos poucos anos o Brasil tenha perdido investimento direto e que até tenha corroído parte de suas reservas internacionais é,, como se sabe," fake news".

 

Como a classe média não poderá deixar de ter doenças e de buscar tratamento médico, não há alternativa senão recorrer ao SUS. Desta forma, o ministro em pouco tempo implodirá o SUS, e confirmará sua tese de que o serviço público não funciona. E venderemos o SUS, como já estamos vendendo todas as empresas estatais por ineficiência genética.

 

Melhora também nossa política externa que vê realizar-se o sonho de ingressarmos na OCDE. Assinaremos em breve um acordo que abre o mercado de licitações governamentais para empresas estrangeiras. Alegria, Alegria, em Wall Street. Nossas empresas de engenharia de projetos muito se beneficiarão da concorrência externa. Nossa indústria de transformação também, asseguram nossos iluminados economistas .

 

Faltou mencionar a reforma administrativa. Mas, essa é muito simples. Acabam os concursos públicos. Reduz-se a máquina estatal drasticamente e nos casos emergenciais se convoca a reserva militar que estará apta a deixar sua aposentadoria para servir ao povo. Por módicos 30% .

 

O resto é delírio coletivo dos tempos em que se acreditava em soberania, direitos fundamentais do cidadão e Estado Democrático de Direito. Patacoadas. Patetices. Pasmaceiras.