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País - Artigo

Narcisismo e Poder: psicologia e terror

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

O voo da subsidiária da grande e confiável empresa alemã decolou de Barcelona em direção a Dusseldorf. O céu de brigadeiro prenunciava viagem tranquila e sem contratempos. Logo após atingir altura de cruzeiro, o comandante entregou a seu co-piloto a responsabilidade de conduzir o voo. Antes de fechar a porta da cabine, instruiu-o a pedir autorização à torre de controle da França para alterar ligeiramente o plano de voo. A pontualidade alemã seria melhor servida se conseguisse recuperar o pequeno atraso no embarque em Barcelona.

O co-piloto, um jovem de de 27 anos, acabara de saber que seu pedido para ser reconduzido à posição de piloto pleno havia sido indeferido em virtude de seu histórico médico onde constava um período de licença devido a estresse e depressão . Não seria despedido, mas muito provavelmente passaria alguns anos sem alçar o nível salarial e prestigioso de comandante de aeronave como aquele Boeing 737. Embora sua avaliação técnica em pilotagem fosse considerada de alto nível, a ficha médica sobre seu segredo mental corria o risco de ser conhecida por seus colegas e por sua noiva. Uma ferida em seu ego fragilizado.

Tão logo o comandante fechou a porta da cabine, o co-piloto levantou-se de sua cadeira, trancou o ferrolho de segurança que só pode ser aberto por dentro da cabine e assumiu o controle da aeronave.

De forma suave e competente, o co-piloto dirigiu a aeronave em descida discreta em direção às montanhas francesas. Reduziu ao menor volume possível o alto-falante de contacto entre a cabine de comando e as torres francesas e alemãs.

Quando o comandante tentou retornar à cabine não obteve resposta a seus insistentes apelos, pancadas na porta e, no final, pontapés e impropérios ao perceber que desciam todos em direção à morte.

O resultado da investigação feita por órgãos internacionais esclareceu que não houve qualquer defeito ou anomalia na aeronave, constatou também pela gravação de seu ritmo respiratório ter o co-piloto permanecido consciente e calado até o impacto da aeronave no solo. Morreram 150 pessoas e não houve sobreviventes. O relatório da investigação culpa o co-piloto, mas não especula sobre suas motivações. Ouso dizer que qualquer neófito em psicologia não hesitaria em sugerir que se está diante de um caso de narcisismo psicótico em que um ego ferido responsabiliza terceiros por seu próprio infortúnio.

Há narcisistas que pilotam países. Alguns deles, muito antes de chegarem a extremos de guerra ou de aniquilação de inimigos por torturas físicas ou mentais, deixam escapar mensagens que nos confundem pelo patético de sua hostilidade generalizada e pelo grito abafado de socorro que ouvidos especializados entendem e observam.

Em 2018, um grupo de eminentes psiquiatras de Yale, após meses de deliberações éticas e científicas,decidiu levar ao conhecimento do Congresso americano suas observações de que Donald Trump apresentava um evidente quadro de desequilíbrio mental de sociopatia ou narcisismo psicótico. Em apoio a essas conclusões, os eminentes psiquiatras elencaram as características clínicas do quadro apresentado por Trump, dentre as quais ressaltam a mentira contumaz, a indiferença pelo outro, o óbvio autoritarismo e sua onipotência destrutiva em relação a seus oponentes, ainda que no círculo mais estrito de seus assessores. Aos interessados, recomendo a leitura do livro publicado por esses psiquiatras, sob o título “The Dangerous case of Donald Trump".

O recentíssimo episódio do assassinato de autoridades iranianas no Iraque parece ter finalmente acendido um luz amarela nas instituições americanas e internacionais. A Câmara dos Deputados americanos acaba de passar uma resolução obrigando Trump a não mais agredir o Irã, sem antes consultar o Congresso. Veremos o que sobre isso dirá o Senado.

A influência de Trump junto a alguns governantes mundiais tem reforçado movimentos autoritários e anti-democráticos que a muitos preocupam. Não deixa de ser significativo e auspicioso que na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas mais de 117 países intervieram nas deliberações com apelos ao diálogo e ao Direito Internacional. A ausência do Chanceler do Irã, por denegação ilegal de visto do governo americano, feriu autoritariamente o Direito Internacional e o acordo de sede entre os Estados Unidos e a ONU.

Não deverá surpreender que parcela significativa do eleitorado americano ou de países da órbita trumpiana continuem a defender a marcha da insensatez. E aí reside o grande desafio das sociedades democráticas, pois o eventual desequilíbrio dos líderes governamentais só prospera em sociedades ou povos também de alguma forma desequilibrados ou injuriados seja pela injustiça do desnível sócio-econômico seja pela cupidez de um sistema econômico-financeiro alheio a desigualdades intoleráveis. Parece que as anomalias se retroalimentam e em nome de uma justiça idealizada rompe-se o elo dos direitos fundamentais e constitucionais.

A sociedade não pode ser psicanalizada. Mas, pode transformar um regime desumano em capitalismo menos espoliador. Sinais premonitórios de um capitalismo consequente com a realidade social começam a reaparecer em setores da Europa. Assembleias cientificas interessadas em psicologia e sociologia acenam com perspectivas inovadoras na compreensão do fenômeno autoritário e seu combate possível. No Brasil, Joel Birman merece atenção em seus trabalhos. As atas e artigos emanados do Congresso de Turim da corrente Lacaniana também. Nesta hora, mais importante que princípios partidários será a frente comum contra o regresso civilizatório.

A Psicanálise, como me alertava Portella Nunes nos anos 60, em encontros terapêuticos, nada mais é do que um iluminamento. Na medida em que nos formos abrindo a formas mais solidárias e racionais de sociabilidade, em que as assimetrias sejam corrigidas por igualdade efetiva de oportunidades, talvez os Trump da vida voltem aos circos de onde nunca deveriam ter saído. E possamos todos voar em paz.

Em tempo: Para recordar a retórica e a elegância política de um discurso do presidente Obama sobre os conflitos entre Cidadãos americanos e muçulmanos, recomendo a leitura do discurso dele na Universidade do Cairo, em junho de 2009. Está disponível na internet (obamawhitehouse.archives.gov).

*Embaixador aposentado