Jornal do Brasil

País - Artigo

Me chamo 2019

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Ele fumava um Robusto em frente à tabacaria Africana na Praça XV. Com cadeiras vazias em sua mesa, fez-me um gesto convidativo para sentar-me a seu lado. Passou-me o isqueiro de tocha azulada e olhou-me com ar entendido para ver se saberia acender o meu Corona. Vestia uma calça de brim bege, camisa azul de colarinho em V e tênis brancos.

Tudo começou aqui, nesta Praça que já teve melhores dias. Apontou para o Chafariz do mestre Valentim e comentou: hoje dá pena. Veja bem, arrancaram todas as placas de bronze dos marcos históricos.

O chafariz está cercado por uma grade como prisioneiro. À sua volta dormem mendigos em plena luz do dia. À noite é risco de vida perambular por aqui. Andar pelo Rio de Janeiro é esbarrar com a miséria crescente, reflexo da incúria deste país.

No dia 31, vou participar da eterna pantomima do otimismo infantil. Acreditar que ano que vem será melhor. O brasileiro se especializou em agredir os anos em que as coisas pareceram andar mal. E confia cegamente que uma virada à meia-noite fará renascer um novo mundo.

Puxou uma longa baforada de seu Robusto e sorriu amargos dentes amarelecidos.

Que tenho a ver com isto? Minha única função é passar um dia depois do outro, em que à noite se siga o alvorecer. Página em branco em que vocês devem pensar o futuro melhor que o passado. Porquê me chamar de ano aziago? Ou de Dies Irae ?

Sou como um piano em que se tocam sinfonias ou marchas fúnebres. Odes à alegria ou concertos patéticos. Não será comprando um piano novo que a canhestra inabilidade competirá com Beethoven, com Mozart ou Tom Jobim.

“O tempo não para“ já alertava o poeta Cazuza e gritava aos quatro ventos dever o Brasil mostrar a sua cara. E afinal a estamos vendo a contragosto. Se achamos tudo bem com essa desigualdade social, com esse desemprego larvar, com essa desfaçatez em mãos de gestores econômicos a prometer um pão requentado para um amanhã que nem sei de onde tirar, convenhamos: a cara é desavergonhada, as ações desumanas, a responsabilidade cívica hipócrita.

Depois de mim, a quem mais se critica é o governo. Como se o governo desabasse sobre nós como chuvas de verão. Como se não fossem vocês, nobres e iluminados eleitores, a se enfeitiçarem pelo cicio das serpentes demagógicas, pelos profetas de pasquim, pelos ignorantes enfarpelados em culturas virulentas e mentecaptas.

Quantos foram nesses últimos cinquenta anos que obtiveram não só o voto mas também a devoção de milhões de vocês que se deixaram levar pela mesma fé rudimentar que os faz acreditar que a cada 31 de dezembro o sol se levanta com raios de sapiência e não de mero calor?

E agora se consegue o impossível e o inimaginável. Imitar teorias sociais que estão a levar outros países a um rosário de dor e sangue. Por mais se escancare diante de vocês que a política da subjugação e da dependência só leve mais cedo ou mais tarde ao servilismo de povos e nações, há os que sempre vaticinam não existirem alternativas para este poderoso Brasil, um dos cinco maiores países do mundo em massa territorial, demografia e recursos naturais. E pintam o país como massa falida a vender na bacia das almas suas empresas estatais por maiores os lucros que apresentam a cada ano em seus balanços. Parece um país com a volúpia do atraso, da regressão civilizacional e confiante nas mãos cúpidas que o querem recolonizado.

Não me culpem por seus desacertos e seus egoísmos mercantilistas. Não me culpem pelas queimadas da Amazônia. Não me culpem por termos transformado nossas Universidades em covis medievais. Não me critiquem pelos 365 dias em que tivemos estampados nos maiores jornais do mundo uma arrogância infantil em que defendemos uma terra plana e uma filosofia obscurantista. Raivosa. Pretensiosa. Paupérrima. Não me culpem por uma política externa extravagante, exótica, ridícula, amesquinhada. A provocar risos de escárnio e comiseração. Envolta num passado de trevas e a propagar um apocalipse delirante. Simplória na forma e no fundo. Rasa, rasteira, tatibitate em idiomas vivos e mortos. Subalterna e subserviente. Talvez, o maior dano que se faz à imagem do país e do Itamaraty, com suas platitudes e sua incapacidade de defender os interesses nacionais políticos, econômicos e culturais.

Sou apenas mais um ano na história deste país. Desejo a vocês um Feliz Povo Novo.

Embaixador aposentado