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As novas gerações e os desafios educacionais

Jornal do Brasil RENATO CASAGRANDE, redacao@jb.com.br

Chamada de geração Z ou simplesmente de centennials por outros, a nova geração é realista, tem mente empreendedora, curiosidade ilimitada e é muito conectada, apesar de muitos acharem que estamos diante de uma geração alienada. Pesquisas indicam que esses jovens são mais conscientes do ponto de vista político e também muito mais questionadores, se comparados com aqueles que os precederam.

Questionam tudo o tempo todo e não se contentam com respostas evasivas. A nossa geração foi reduzindo os “porquês” com o avançar da idade, até pela própria imposição dos pais e das respostas duras que recebíamos a cada pergunta. Tanto o modelo de educação nas famílias, como na escola, pouco permitia os questionamentos.

No entanto, essa nova realidade trouxe inúmeras dúvidas para os pais e professores quanto ao futuro dessa geração. O que os levará ao sucesso? Como prepará-los para o sucesso na vida em sociedade e na vida profissional?

Os especialistas costumam dizer que não temos respostas à maioria das perguntas, mas que é possível antever que essas crianças precisarão, e muito, de habilidades como paciência, tolerância, humildade, resiliência, saber ouvir e tantas outras virtudes clássicas de todos os tempos. E por que essas virtudes ganham destaque agora e voltam a ser discutidas? É que há muita probabilidade de essas gerações trabalharem lado a lado, e por muito tempo, com as gerações Y, X e com as novas que estarão por vir.

Ou seja, com as mudanças sempre mais céleres, cada vez mais gerações diferentes trabalharão juntas. Isso exige o desenvolvimento dessas competências comportamentais ou de virtudes para um êxito satisfatório no ambiente profissional e na vida em sociedade.

Estima-se que mais de 2 bilhões de indivíduos da geração Z em breve estarão no mercado de trabalho. É muita gente que traz expectativas novas e exige uma reconfiguração social contínua. Essa entrada vai impactar, e muito, comportamentos, hábitos e posturas de todos os profissionais.

Como já ocorreu quando da entrada dos millennials, mais uma vez a cultura das organizações sofrerá ajustes. O novo cenário exige, cada vez mais, a capacidade de fazer mais coisas ao mesmo tempo, fortalecer as relações hierárquicas mais horizontais, rever continuamente as formas de organização do trabalho e, principalmente, a comunicação. Segundo pesquisa elaborada pela consultoria de carreira Robert Half, 30% dos profissionais do mundo corporativo acreditam que a comunicação é a principal diferença entre as gerações e um dos grandes desafios para as organizações.

Outro fato bastante importante é que cada vez trabalhamos com uma geração que costumo chamar de “propósito”. Já sentimos isso com a chegada dos millennials e veremos isso mais forte com a chegada da geração Z. Se estamos falando da geração dos “porquês”, é lógico que toda atividade, tarefa ou projeto deverá ser muito bem explicado e ter um propósito extremamente claro para que seja capaz de engajar essa meninada e obter deles excelentes resultados.

Aqui estamos diante de um grande desafio também para os professores. Apresentar informações, conhecimentos, fórmulas, leis, conceitos sem esclarecer os motivos que estão por trás de cada aprendizagem. Por que estou aprendendo isso? Onde vou usar esse conhecimento? Isso já não causa mais motivação e, cada vez mais, irá trazer problemas ao meio educacional.

Pesquisas da Universidade da Carolina do Norte mostram que, na dimensão pessoal e profissional, muitas das dimensões humanas estão mais fortalecidas. As novas gerações, assim como as anteriores, buscarão sempre oportunidades e espaços de aprendizagem, desafios constantes no trabalho, integração de sucesso profissional e pessoal, além de ganhos competitivos. O que mudou foi a forma de realizar essas buscas.

Portanto, vivemos na era da inteligência volitiva. A partir dessas reflexões permeadas por análises dos comportamentos das novas gerações e os desafios que esperam os professores diante desta realidade, incluo um dado dicotômico nas compreensões sobre a percepção de professores e alunos sobre o que seja um processo de aprendizagem significativo.

Quando perguntei aos professores do ensino fundamental II de uma escola se suas aulas eram estimulantes e despertavam a motivação e o interesse dos alunos, cheguei a um percentual surpreendente: 91% dos professores consideraram suas aulas extremamente estimulantes. Quando fiz a mesma pergunta para os alunos desses professores, ou seja, o quanto as aulas ministradas por eles são estimulantes, o percentual caiu para 58%. Vemos aí uma diferença de 33%. Como explicar esse gap? Elevada autoestima do professor? Expectativa maior dos alunos? Descompasso entre o que o professor acredita que é uma boa aula e que o aluno entende como boa aula? Exigência maior por parte dos alunos? Receio dos professores em fazer uma autoavaliação mais apurada?

Eu diria que todos os motivos, e mais alguns, justificam essa diferença de percepção entre professores e alunos. Será que não chegou o momento de refletirmos realmente o modelo educacional que estamos usando? Será que esse modelo praticado vem ao encontro das necessidades e dos desejos do ser humano em sua essência? Em síntese, nosso modelo educacional é capaz de responder os “porquês” que naturalmente acompanham a pessoa humana como ser investigativo?

Ou continua sendo um modelo preocupado em passar informações insignificantes, focado em fazer do cérebro um armazém de informações que ficam ali guardadas para serem simplesmente repetidas na hora de uma avaliação? Se for esse último motivo, precisamos urgentemente ter a humildade de nos rever como profissionais da educação, sob pena de ficarmos sempre mais para trás em relação ao contexto e ao que buscam e precisam as novas gerações.

* presidente do Instituto Casagrande. Conferencista, palestrante, escritor, pesquisador e consultor em Educação, Gestão e Liderança no Ambiente Educacional. Doutorando em Educação, é mestre e bacharel em Administração e licenciado em Matemática.