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País - Artigo

As armas da cidadania

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN *, artigosadhemar@yahoo.com

A maioria das pessoas com quem converso tende a manifestar um sentimento de rejeição à vida política, aos políticos, ao Congresso, ao Presidente e ao Judiciário. “Se eu pudesse, me mandava para Portugal. Ou para a Finlândia. Ou para os Estados Unidos”.

O sentimento não é novo, claro. Mas, se torna cada vez mais difundido e perpassa classes sociais e se torna quase um refrão no início, no meio ou no fim de qualquer conversa sobre os eventos do dia.

A esses interlocutores, faço sempre a mesma pergunta. “Você votou nas últimas eleições”? Porque é óbvio que o governo que temos foi eleito por nós. Não nasceu por força divina, longe disto. Então, se estamos descontentes, deveríamos nos perguntar onde erramos ou onde fomos enganados e tentar corrigir o erro ou denunciar o engano.

Para a maioria de nós, o exercício da cidadania se esgota no ato de votar. A partir daí, deixamos nas mãos do destino nossa sorte ou nosso infortúnio. E passamos a falar de nossos descontentamentos como aquelas velhas lavadeiras a se lamentar da vida, enquanto batem roupas no riacho.

Tenho uma má notícia para vocês. Os políticos adoram esta atitude. Sabem que só precisarão vir a sua porta nas próximas eleições, quando, com as mesmas cantilenas de sempre, culparão as forças do além pelo descaso. Mas, o Brasil é nosso. E você, ingenuamente, a tudo perdoa e recomeça a velha via sacra.

Você não acha que está na hora de mudar um pouco esse joguinho? Não está cansado de se fazer de trouxa? De ver seus filhos ou netos sem empregos decentes? Sem conseguir uma assistência médica condigna?

Veja bem. Além de votar você paga impostos. Além de votar você não pode negar que a vida piorou para você e para sua família. O ministro da Economia vive dizendo que depois da reforma da Previdência, depois da reforma tributária, depois da reforma administrativa, depois das privatizações, e depois e depois.

Mas, você e seus filhos têm que comer hoje, têm que ir para a escola hoje e têm que pagar o condomínio no fim do mês. Água, seguro-saúde, creche do netinho.

Quando de noite você liga a televisão, milhares de ventríloquos dos gênios econômicos falam, falam, falam e você tem a nítida percepção de que vão tirar mais um naco do seu salário. E vai dormir inquieto porque amanhã pode ser o dia em que vai perder o emprego.

Você não acha que está na hora de parar de pensar em Portugal, na Finlândia, ou nos Estados Unidos e acordar para a realidade?

Você mora num país tropical abençoado por Deus, mas profundamente injusto social e economicamente.

Vou fazer uma sugestão. É um procedimento muito utilizado nas democracias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, por exemplo, fazem isso de montão e tem até organizações de cidadãos em defesa disso e daquilo.

É muito simples com a internet. Mande um email para o deputado em que você voltou e reclame. Pergunte a ele o que está fazendo que não defende os seus interesses, dos seus filhos, dos seus netos. No site da Câmara dos Deputados tem o email de todos os deputados. Procure o do deputado em que você votou e sapeque nele um email. Não precisa se preocupar com salamaleques. Você pode até mandar uma só linha, por exemplo: “Eu estou sufocando com essa política” ou “Não voto mais no senhor ou na senhora”. Não use palavrões. Hoje em dia eles são considerados quase como apoio ao governo. Evite os palavrões, as palavras chulas. Você vai provocar muito mais impacto como uma frase simples do tipo: “Fui no posto de vacinação e não tinha vacina para o meu filho”. Ou “Não posso trabalhar porque não encontro creche para minha filha”. Ou se você quiser sofisticar um pouco mande uma frase mais jurídica “Se o senhor ou a senhora votar a favor da mudança da Constituição, nunca mais voto em você“.

Sua arma é o voto, muito mais letal que o revolver. Se todos procederem desta forma, os deputados vão começar a conversar com vocês. Não apenas mandar um santinho com um sorriso de anjinho. Vão ter que conversar, vão ter que abrir as portas dos escritórios para ouvir suas posições e reivindicações. A democracia é uma estrada de mão dupla.

Mas veja bem: nada de palavrões e assine seu nome. Quem fala palavrão é olavista-da-terra-plana. Quem não deve não teme.

A cidadania é um exercício cotidiano. Direito inalienável de todos nós. Cada país tem o governo que escolhe. Onde começa a cidadania organizada, consciente de seus direitos e interessada no bem comum, a charlatanice murcha, a corrupção não prospera e eleitor e eleito são sócios na construção de um mundo melhor. Já tivemos melhores dias, já tivemos piores anos. Soubemos escrever uma Constituição das mais progressistas do mundo. Cumpri-la é nosso maior desafio. Despedaçá-la, nossa maior derrota.

Convenhamos: o ódio nos separa, nos impede de buscar uma solução negociada e tende a perpetuar no poder os que dele se beneficiam. A hora é de destravar os nós com que atamos nossas próprias mãos. De novo crédito a seu país e não inveje o dos outros. Em qualquer outro, você sempre sofrerá o estigma do estranho, do estrangeiro. Aquele que se tolera, mas sempre se evita. Delicada ou grosseiramente. É a natureza humana. Pode crer.

EM TEMPO: você encontrará na minha página do Facebook o texto integral da “Carta de Florianópolis “, emitida pelo Cofecon - Conselho Federal de Economia- sobre alternativas para a retomada do desenvolvimento econômico, emitida ontem. Por que você não inicia seu diálogo com o seu deputado enviando uma cópia para ele? Diga que está de acordo.