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O conflito entre a prática da Contabilidade e o uso efetivo da Ciência Contábil

Jornal do Brasil SÉRVULO MENDONÇA

Nos acostumamos a mudar, na vida, na profissão, nas prioridades. O importante é em cada ciclo aprender, colocando em prática a experiência vivida, passando adiante não só os acertos, mas também os erros, para que novas gerações evoluam mais fácil, e na evolução tenhamos uma nova percepção das coisas, e consequentemente um futuro melhor para a sociedade.

É por esse ciclo de aprendizado que me faço presente em diversas entidades de classe, atuo como Diretor no SESCON-RJ, como Membro da Comissão de Prerrogativas Contábeis do CRC-RJ, bem como Membro da Comissão de Direito Contábil da OAB-RJ, e mais recentemente recebi e aceitei com honras, o convite para mais uma Comissão, a da Empresa Cidadã do CRC-RJ, onde poderei colocar em prática os quesitos de integridade e transparência, tão necessários para este momento de mudanças éticas e morais que vivemos.

Nesse ciclo de mudanças, assisto apreensivo a inúmeras profissões, inclusive a nossa, relacionando os avanços tecnológicos com a redução dos honorários profissionais. Até compreendo que algumas destas tenham notoriamente perdido espaço para as máquinas, mas não observei profissões, historicamente nobres, perdendo o seu valor. Não verifiquei médicos conceituados e com notório saber reduzindo suas consultas pelo avanço da medicina diagnóstica, nem tampouco advogados especialistas, ou mestres de cozinha. Então o que ocorre com a nossa Ciência? Qual o ponto de ligação entre tecnologia e redução de honorários? Será a tecnologia capaz de eliminar a questão contábil científica? Creio que não.

Torna-se então ímpar que todos nós façamos uma profunda reflexão e reavaliação comportamental para a sobrevivência digna da nossa Ciência.

Observo atentamente as mutações que vivemos, estamos atirando feito loucos para profissões colaterais, abraçando cada vez mais serviços adicionais, e na contramão da reciprocidade, cobrando cada vez menos por fazer cada vez mais. Sabemos que honorários não podem ser controlados, mas há valor na Ciência, o problema é que não a estamos praticando, e o mercado vem assimilando isso e qualquer outra coisa mais simplista como atributo de função da classe contábil, que ao invés de continuar lutando para se reerguer, e quem sabe se transformar na profissão digna que países evoluídos já consideram, está, estranhamente, negociando entre pares profissionais, reduzindo o valor agregado.

Chegamos em um momento onde não mais refletimos sobre tudo que somos, estamos apenas interessados no quanto nosso concorrente (em tempo, colega de profissão) cobra por seus serviços, para ofertarmos valor inferior, e assim puxar um telefone sem fio que transcende a lógica, a integridade, moral profissional. Afinal o que pretendemos?

As empresas que fecham não o fazem por falta de gestão, creio que um percentual expressivo das falências e quebras estão atrelados ao não uso da Ciência Contábil, mas como dizer isso aos quatro ventos se é algo de baixo valor?

Façamos uma correlação simples, as pessoas gostam e usam grandes marcas, pagam mais caro por isso, não se importam, então por que irmos na direção contrária? Para os amantes de grandes marcas, retirando daqui as exceções por ego ou vaidades, vale a história, vale a experiência vivenciada e vivida no sonho de qualidade de outrem, na construção. Grandes marcas não nascem grandes, há histórias incríveis sobre elas, se permita experimentar e talvez comece a entender que há elementos e questões mais importantes que competir com o próximo.

É necessário que voltemos a praticar o que chamávamos de honorários justos, e o justo é a avaliação da complexidade, singularidade de cada corpo organizacional, empresarial. Saiba fazer preço, saiba entender para praticar gestão. Não se baseie no outro para arrancar dele algo que foi construído com suor e alto esforço qualitativo e quantitativo, sim, pois temos imagem e muito dinheiro envolvidos para que possamos comprovadamente sermos capazes de controlar, gerir, entender, transformar o patrimônio.

Para você que hoje vive do marketing digital e se vale da conquista de inúmeros clientes com baixos honorários, fica o alerta, leia e compreenda os riscos dessas tratativas após a Lei 13.709/2018 (Lei de Proteção de Dados).

Para você que se vale de atividades adicionais aos serviços contábeis, para sustentar a ideia de contabilidade presente, permita-se aplicar novamente a contabilidade científica, e entenderá que está se preocupando com a entrada e deixando o prato principal ser, da mesma forma que partimos para outras profissões, ser partido com outros profissionais.

Não consigo compreender o incompreensível, não consigo explicar o óbvio, dirá desafia-lo, e infelizmente trago más notícias, ou assumimos o nosso papel como líderes de gestão pelos aspectos científicos da contabilidade, ou estejamos preparados para usufruir do “pouco” que “muitos” estarão dispostos a pagar pelo “nada” que está sendo gerado de conhecimento contábil.

Faça Contabilidade, liberte-se do achismo que te julga inferior e do viés tecnológico que por certo faz apenas automatizar os processos de integração, importação, ou inserção manual de dados. E a propósito, ao escolher o seu nicho, escolha um só, contabilidade, seja pra quem for, da melhor maneira que puder ser feita.

 

* Sérvulo Mendonça é especialista na área contábil, CEO do Grupo Epicus e fundador do Fórum 3C.