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Argentina: por que não deu certo

Jornal do Brasil MAURO ROCHLIN *

Uma aguda desvalorização cambial, em agosto passado, voltou a assustar os argentinos. Após o ataque especulativo sofrido pelo peso no ano passado, uma nova turbulência voltou a afetar o mercado de câmbio na Argentina. No período de doze meses encerrados em setembro, a alta do dólar em relação ao peso já ultrapassa 100%. Somente nos últimos três meses, a alta já supera 30%. Mas, afinal de contas, por que, repetidamente, a taxa de câmbio tem sofrido desvalorizações tão acentuadas? Quais as causas desse desarranjo recorrente? Mais ainda: dado que recentemente o país obteve um empréstimo de US$ 57 bilhões do FMI, o que sustenta a atual alta do dólar? 

Após um curto período de relativa estabilidade, vários fatores passaram a concorrer para que a moeda argentina exibisse maior volatilidade. Pelo seu potencial de impacto no fluxo cambial, listamos a seguir os quatro principais.

O primeiro fator se refere à inconsistência da política macroeconômica do governo Macri. Uma combinação de política fiscal pouco austera e de política monetária muito flexível - a despeito do discurso liberal do governo - foi a estratégia adotada. Após três anos de governo, a política se revelou excessivamente tímida no enfrentamento de um elevado rombo fiscal e muito generosa no que se refere ao crédito. O resultado, como se viu, foi uma rápida elevação da relação dívida/PIB e uma forte aceleração da inflação. Com a piora nos indicadores, o mercado se mostrou mais avesso ao risco, e isso aumentou a demanda por moeda americana.

O segundo se refere à manutenção de um elevado déficit externo. O déficit no comércio exterior, que alcançou o equivalente a -5,9% do PIB em 2018, dá a medida da gravidade do problema. Uma taxa de câmbio relativamente apreciada (no biênio 2016-2017) conjugada a um movimento de queda no preço das commodities (carne em destaque) explica esse mau resultado. Como o déficit externo cresceu de forma explosiva, o fluxo cambial ficou muito dependente do fluxo de capital financeiro estrangeiro. Dada a volatilidade inerente a esse tipo de capital, não é difícil entender o quanto o rápido crescimento do déficit contribuiu no aumento da instabilidade do câmbio.

O terceiro fator se refere aos rumos da campanha presidencial. O presidente Macri, nas prévias eleitorais de agosto, teve desempenho sofrível. Recentes pesquisas mostram que são reduzidas as chances de vitória eleitoral do atual dirigente. Dado o crescimento acelerado da relação dívida/PIB do país, o mercado entende que há necessidade premente de reformas. O quadro fiscal é, sem dúvida, o que mais preocupa. Como o candidato que lidera as prévias não é visto pelo mercado como comprometido com a proposta de ajuste fiscal, a divulgação das pesquisas inflamou a ‘aversão ao risco’ dos investidores. Por conta disso, se intensificou a procura por um “porto seguro”, e a compra de dólares foi vista como tal.

E, por fim, o chamado “efeito-manada”. Esse efeito se refere a uma reação em bloco dos investidores em resposta a uma súbita mudança no cenário. No caso da Argentina, uma alteração na regulação tributária, que passou a onerar títulos públicos denominados em dólar, deflagrou um forte movimento de venda desses títulos. Dado o péssimo histórico financeiro do país, os demais ativos financeiros locais (leia-se ações e demais títulos financeiros) também passaram a ser vistos como “de maior risco”. Por conta disso, a compra de dólares aumentou, elevando, assim, a pressão sobre o câmbio.

Em resumo, a crise cambial que assola a economia da Argentina é resultado de um processo de desequilíbrio fiscal crônico. O que incentiva a ocorrência de repetidos movimentos especulativos é justamente a manutenção de um elevado déficit fiscal. A maior possibilidade de calote da dívida argentina, implícita na alta explosiva da relação dívida/PIB, é o que estimula a corrida ao dólar. Diante disso, somente uma proposta comprometida com o ajuste fiscal poderia frear essa corrida. Sem perspectiva de melhora fiscal, não haverá estabilidade cambial. Não há solução cambial sem que, antes, a questão fiscal seja resolvida.

* Doutor em Economia e professor da Fundação Getúlio Vargas