Jornal do Brasil

País - Artigo

Segunda Conspiração Mineira

Jornal do Brasil PAULO RABELLO DE CASTRO *, rabellodecastro@gmail.com

O quinto do ouro teria sido o estopim da revolta que levou os inconfidentes da antiga Vila de São José a se reunirem na casa do padre Toledo e começarem a conspirar pela derrubada do regime ditado por Lisboa. No final, não deu certo e houve prisões, degredo e um enforcamento com a desonra do esquartejamento.

Quando estudante, sempre me estranhou essa última parte. Por que picar o corpo do enforcado, salgá-lo para viagem e despachar os pedaços para exposição pública na capital e nas províncias? Literalmente, o alferes de Tiradentes não teve sequer direito póstumo ao Habeas Corpus. O corpo esquartejado do mártir da nossa Independência permanece como aviso claro aos brasileiros de ontem e de hoje: não provoquem demais as autoridades! Recolham-se às suas insignificâncias e continuem financiando os estupradores da Pátria. Temam por seus corpos esquartejados em praça pública. Nos respeitem!

Já não há mais lusitanos a nos explorar com excesso de impostos nem o "quinto dos infernos" é mais aplicado à produção nacional. Os portugueses seriam colonizadores camaradas pela régua tributária de hoje. Pela indústria brasileira hoje transitam encargos equivalentes à metade do valor da produção. O quinto, ou 20%, virou 50%, grandemente repassado ao preço dos produtos industriais do Brasil, tornando quase tudo aqui produzido caro demais e não competitivo. Dona Maria, chamada carinhosamente por seus contemporâneos de A Louca, havia proibido produção de manufaturas em território do Brasil Colônia. Pois bem. Com as quedas recentes da produção industrial, que já representou mais de 20% do PIB e hoje anda

pela casa de apenas 12%, e ainda caindo, em breve estaremos de novo enquadrados no édito proibitório da rainha louca. Adeus indústria nacional. Adeus sonho tolo de um JK.

Hoje não precisamos mais de reis ensandecidos para destruir um País que, se liberado de seus exploradores, estaria pronto para crescer e dar um show para o mundo. Temos Brasília e seus atores. É o que basta, quando a elite econômica do País se faz de distraída para obter vantagens no varejo sobre uma reforma tributária iníqua que conspira contra a produção e os brasileiros. A história se repete e não nos damos conta do seu retorno. Perguntem aos dirigentes empresariais do País o que estão achando das PECs, as propostas de reforma tributária em curso no Congresso.

É escandaloso o adesismo a textos da proposta que: a) elevam em até 40% o preço relativo dos alimentos em relação a perfumes ou bebidas; b) desoneram os bancos enquanto prometem tributar o serviço da costureira em 30%; c) mantêm o país inteiro com três impostos ADICIONAIS aos já existentes que, ao invés de serem substituídos, permanecerão como zumbis por mais dez anos; d) dão garantia de receita real corrigida para todos os entes federativos enquanto suprimem qualquer cláusula de contenção de despesas por parte dos gastadores nacionais. Paro por aqui para não esculachar o que nos promete arregaçar ainda

mais o bolso como pagadores passivos de impostos.

Participei há poucos anos de uma manifestação de pequenos empresários do varejo, protestando na rua por menos impostos. A marcha percorreu algumas avenidas de Belo Horizonte até o pé da estátua de Tiradentes. Gritamos palavras de ordem. Vestimos camisetas com a estampa da corda que teria enforcado o mártir. Nos nós da corda vinham escritas as siglas de cada tributo que hoje enforca os colonizados brasileiros. Podemos agora fazer outra marcha. E já podemos escrever mais duas ou três siglas de novos tributos nas voltas da corda do enforcamento. Perdemos a primeira inconfidência. Perdemos no futebol (em BH mesmo!). Convoco o sangue mineiro que não deixe o espírito da inconfidência ser derrotado pela segunda vez, em pleno Congresso Nacional, pela sanha dos enforcadores do futuro do País.