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País - Artigo

As mulheres de Bacurau

Lídice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

“Quem nasce em Bacurau é o quê?” Eu queria ser uma bacurauense. Daquelas arretadas, de fala forte, olhar seguro e sorriso largo. Mistura de Domingas com Carmelita. De Sônia Braga com Lia de Itamaracá. Que coisa linda aquelas mulheres de Bacurau. Que falam de igual para igual com os homens porque assim são vistas e tratadas. Que são bravas e corajosas. Cheias de charme e autenticidade. Teresa é assim. Com cachos, pele morena, sorriso aberto. Vai para o enterro da avó, mas quando reencontra Bacurau e suas raízes, decide ficar de vez. E incorpora o dia-a-dia do povo com intensidade, alegria, vontade de viver, muita vontade. 

Domingas é assim. O que move o povo de Bacurau é a vontade de viver. Apesar de tudo. E cuidando de tudo. E de todas e de todos. E quem cuida, protege os adultos, as crianças, as prostitutas, as donas de casa é a fortaleza Domingas. Sônia Braga joga na nossa cara toda a beleza de seus sessenta e nove anos e enche a tela de expressões que passeiam entre a altivez, a ternura e a nobreza. Domingas é a mulher que Frida Kahlo adoraria ser se assistisse a Bacurau. Aliás, a todo momento, eu comparava Domingas a Frida. Pela bebida, pelo charme, pela ausência de medo. Apesar de ocuparem diferentes tempos – Frida no passado e Domingas no futuro – e lugares. Domingas tem a peculiaridade de habitar uma cidade que desapareceu do mapa, o que lhe concede um ponto a mais na analogia com Frida. Viagem minha? Talvez. É que, para quem sai do sudeste, chegar a Bacurau exige uma viagem longa. E quem for, vá na paz.

Ao lado de Domingas em força e poder, está Carmelita, Dona Carmelita, a matriarca que reúne todos os afetos de Bacurau. Assim como a cirandeira Lia de Itamaracá, patrimônio vivo de Pernambuco, doutora honoris causa pela Universidade Federal do estado, que emprestou toda a sua sabedoria, cor e sorriso para Dona Carmelita. A forte ligação entre as duas mulheres fica evidente logo nas primeiras cenas do filme, carregadas de demonstrações da admiração que a população bacurauense nutre por Domingas e Carmelita.

Domingas, Carmelita, Teresa, Isa, Deisy – interpretada pela paraibana Ingrid Trigueiro –, uma das muitas mulheres que sabem manejar armas para defender Bacurau, são herdeiras e sujeitos da história da cidade, exposta no museu por meio de fotografias, espingardas e escopetas. Estão ao lado dos homens na tarefa permanente de preservar Bacurau, sua terra, seu povo, seu modo libertário e tão independente de vida. Os bacurauenses são modelos vivos dos vínculos. Fortes e duradouros. E as mulheres de Bacurau não estão para brincadeira.

Vale destacar ainda as violentas vilãs de Bacurau. Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles e a produtora francesa Emilie Lesclaux, mulher de Kleber Mendonça, usaram a mesma fórmula das bacurauenses para criar as antagonistas do longa. São mulheres tão cruéis quanto seus pares masculinos. Também falam do mesmo lugar que os homens, com igual potência agressiva. Em Bacurau, não há mulheres “belas, recatadas e do lar” nem entre as moradoras nem entre as forasteiras.

É assistir e sair do cinema com a certeza de que todo povo que sabe resistir tem na sua ancestralidade mulheres que resistiram. Eu queria ser uma bacurauense.