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Como é mesmo, Ministro? Paulo Guedes, vendedor de ilusões

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN *

Quem popularizou a frase foi JK. “Não há nada mais antigo do que o jornal da véspera“. Mas, nesses dias, há jornais e sobretudo entrevistas a nos fascinar pelo otimismo, pela abertura intelectual e inusitados ensinamentos. Abençoa-nos a supina sorte de termos no leme de nossa economia, um dos maiores estadistas do planeta. Formado em Chicago, conhecedor de números e curvas, taxas e gráficos, de grande sensibilidade social, e provável próximo Nobel de Economia, Paulo Guedes é nosso gênio inconteste, cuja modéstia o impede de falar em público a não ser em raras ocasiões.

Sua Excelência concedeu entrevista histórica ao “Valor” na segunda-feira 9 deste primaveril setembro. Fiquei tão entusiasmado, tão bestificado que decidi trazer para vocês trechos da entrevista, densa de reflexões e inspirada nos mais altos e admiráveis projetos de uma inteligência ímpar. Confesso que mal comecei a transcrever alguns parágrafos senti o brilhantismo das frases, os conceitos cristalinos a se perfilarem de forma harmoniosa a nos evocar um Mahler, um Beethoven, um Bach, tocado pelos dedos leves e obsessivos de Glenn Gould.

Diz-nos Sua Excelência: “Acreditamos que dois algoritmos são a base da prosperidade da sociedade ocidental: a democracia e os mercados. Ambos são semelhantes. Democracia é um sistema de decisão política onde os poderes são limitados e descentralizados. A economia de mercado é um sistema de decisão econômica descentralizado. Ao invés de ter uma empresa de petróleo, por exemplo, teremos várias".

Joguei fora meus livros de teoria política. Como Aristoteles, Bobio, Hannah Arendt e tantos outros puderam ser cegos aos dois algoritmos em nossa civilização ocidental? Tão simples e genial. Ali estavam imbricados os mecanismos seminais do poder econômico e do poder político. Os mercados, como força motriz, com seus algoritmos de auto-regulação. Venderíamos a Petrobras, mas surgiriam como cogumelos novas petroleiras no Brasil. Minha colega de estudos, da mesma nacionalidade de Maria da Conceição Tavares, ao ler o texto passou a andar pelos corredores a murmurar: “bestial, bestial, verdadeiramente bestial este gajo“.

E Guedes prossegue: “Tem muita crítica ao governo, mas, cá para nós, em 8 meses fizemos muitas coisas que não foram feitas nos últimos 8, 10, 20 anos (...) Ah! mas o Michel Temer já estava negociando o acordo do Mercosul. Mas não fechou, lembrou Guedes. Os governos estavam negociando há oito anos e nÓs fechamos em dois meses. O fato é o seguinte: não fizeram, nós fizemos. Porque a orientação é abrir. Por isso nÓs juntamos o antigo ministério da Indústria e Comércio com a Fazenda, porque Indústria e Comércio era um lobby que impedia a abertura da economia brasileira. Acabamos com ele, que virou a Secretaria Especial da Produtividade...

Nesta hora, resolvi telefonar para o Jorjão, durante anos negociador de acordos comerciais no Itamaraty e com quem mantenho fortes laços de amizade. Depois das palavras de praxe, entrei direto no assunto.

- Você leu a entrevista do Ministro? O telefone ficou mudo por alguns instantes e percebi que Jorjão suspirava. Logo, falou com aquele vozeirão que intimidava o porta-voz da União Europeia na OMC.

- Você é o quarto degenerado que me telefona hoje. Li. Morri de rir.

- Mas, não vi nada de engraçado. Achei muito sensata, muito equilibrada. Afinal, porque a gente ficou embromando a União Europeia por tanto tempo? Em dois meses, eles fecharam o acordo.

- Olha aqui, Brigadeiro, - me chamavam de brigadeiro porque em certa fase de minha vida tentei fazer asa-delta - do jeito que eles fizeram eu fechava o acordo por WhatsApp. Não precisava nem gastar o tutu das passagens aéreas. Você esqueceu como esses caras são fominhas? Você esqueceu das propostas para compras governamentais, para patentes farmacêuticas, para a entrada de serviços no Brasil, para a obrigatoriedade de renunciarmos ao processo judicial brasileiro em favor da arbitragem? Você esqueceu tudo isso? Já está babando na gravata?

- Mas, isso não era na ALCA, Jorjão?

- Os Estados Unidos sempre querem uma mordidinha adicional. Você vai ver que eles próprios vão embananar este acordo com a União Europeia. Aliás, já embananaram. Acham um acinte a Europa ter relações preferenciais com o Brasil e eles não. Pode escrever.

- Mas por que então fechamos com eles, cara?

- Briga, você não leu a entrevista? Tá lá, preto no branco. O homem mandou abrir as porteiras. É decisão ideológica. Botou a culpa nos algoritmos, mas é pura descrença na capacidade nacional, pura ideologia neo-ultraliberal-olavista-terraplanista, em que mergulhamos de cabeça para gáudio geral da arquibancada. Por que o Guedes insiste em dizer que os governos Temer, Dilma, Lula e Fernando Henrique não fecharam acordos de comércio e ele fechou em dois meses? Simplesmente porque aceitamos tudo que na visão do Guedes era ou protecionismo ou lobismo. Acredite quem quiser. Escuta aqui, Briga, você está com que, 78, 79 anos, não é mesmo.?

- 77.

- Pois é. Não quero nem saber, mas você deve estar tomando remédio para a próstata, para o colesterol, para o açúcar no sangue, para a hipertensão circulatória, para a hipertensão ocular. Vira e mexe você vai ao dermatologista para tirar uma pereba peçonhenta, ao cardiologista para regular as batidas, que às vezes aceleram, às vezes ficam lentas ameaçando - Deus nos livre - parar. Tua mulher tem as mesmas coisas. Substitui próstata por útero e o resto é igual. Pois fique sabendo que nossas vidas vão piorar muito. Está lá, juntamente com os algoritmos, todo o saco de maldades do governo em cima de nós, aposentados ou profissionais liberais, classe média, média média, pobre, pobre de marre de si.

- Jorjão, você sempre foi pessimista.

- Pessimista é o meu buldogue francês que outro dia me perguntou se dava para vender o pedigree dele para não passar vergonha com os amigos vira-latas. Aqui em casa não tem mais filé. Só para os netos e olhe lá. Mas veja bem, Briga, você já viu o que os algoritmos querem fazer com os nossos salários e com o nosso imposto de renda?

- Bem. nos salários eles não podem mexer.

- Briga, você não entende nada de algoritmos. Mexem no teu desconto para a Previdência e te garfam cinco a seis por cento adicionais. No imposto de renda, cara, é o garrote espanhol. Veja bem, o Guedes quer eliminar os descontos de despesas médicas. Se você somar o inevitável aumento do monopólio das grandes empresas farmacêuticas aceito por nós no acordo Mercosul-União Europeia com a política de eliminação das despesas médicas no imposto de renda, os custos de saúde para os assalariados vai aumentar e para os idosos vai explodir. Consequência: a classe média vai correr para o SUS, como já correu para as escolas públicas. Se você se lembrar que o Guedes quer tirar do orçamento as despesas obrigatórias com saúde, o SUS quebra de vez. A classe operária vai para o paraíso e a classe média para o inferno. Sacou?

- Um momento aí que vou tomar meu remédio para pressão.

- Aproveita enquanto pode. Tem mais. O Guedes diz que tem que vender todas as empresas estatais. Parece até que ele não sabe que a recente melhora da arrecadação federal se deve em grande parte ao lucro das estatais. Mas, isso também é um algoritmo. Oculto.

- Mas, tem algumas que só dão despesas.

- Essas podem ser vendidas, se forem inúteis. Outras não dão lucro contábil, mas modificam paradigmas. Veja a Embrapa. Quanto vale o que ela fez pelo agronegócio? O mal deste liberalismo desbussolado do Guedes é a generalização. Se é do Estado é ruim; se da iniciativa privada, é bom. Um algoritmo maniqueísta primário. Outra coisa, o Guedes solta balões de ensaio para ver se cola. Deu um nome bonito para a antiga CPMF. Isto foi no sábado, na quarta-feira o culpado foi o secretário da receita federal. Demitido em praça pública como réprobo. E por aí vai. Os 120 bilhões que ele contava com a CPMF vão sair de onde? É sempre assim, um foguete hoje, um rabo de foguete amanhã.

- Você está demolindo tudo. Parece até o PT, pô.

- Briga, não provoca. Você sabe das minhas críticas ao PT, ao PSDB etc. O buraco é mais embaixo. Nem o PT nem o PSDB enfrentaram o capitalismo financeiro. Como explicar que com uma Selic de 6,5%, os juros do cartão de crédito cheguem a 250% ao ano? Isto é usura em qualquer idioma do planeta. E todo mundo fica ouvindo a toadinha que as classes médias e pobres são inadimplentes. Conversa para boi dormir. Quais são os maiores devedores da Receita Federal? Da Previdência Social? O ultraliberalismo do Guedes é ostensivamente promotor de uma crescente desigualdade social.

- Como explicar que funcionários públicos militares ou civis de quem se exige dedicação exclusiva e tempo integral paguem em torno de 25% de alíquota na folha e os ricos, sem necessariamente sonegar, paguem muito menos?

- Porque o Guedes não abre a boca sobre isto? Não se trata de cobrar mais dos ricos necessariamente; trata-se de montar um sistema tributário menos regressivo. Porque o Guedes não fala sobre isso? O que ele fala é que se cortar radicalmente o funcionalismo público, tudo melhora. Bullshit, como se diz em Chicago. Todo país decente tem burocracia, inclusive os Estados Unidos. Até milhardário teme o imposto de renda americano. O FBI. E eles também têm estatais. Pergunte a eles se eles querem vender a rede elétrica do país. No Brasil temos instituições civis e militares de nível igual ou melhor. Cito algumas: as Forças Armadas para começar, o IME, o ITA, o Banco Central, a Polícia Federal, a Receita Federal, o BNDES, a Petrobras (sim, a própria) o Banco do Brasil, a Embraer (que vendemos quase inteiramente) a escola fazendária, a Embrapa, diversas Universidades Federais e estaduais (UFRJ, USP), o Instituto Rio-Branco e o Itamaraty que, até pegar esse sarampo infantil, era considerado um dos melhores serviços diplomáticos até por nossos rivais. Todos os que ingressam nessas instituições passam por concursos dificílimos, avaliações de aptidão física e mental. E trabalham em tempo integral e dedicação exclusiva. A maioria deles sofre do mal maior de acreditar no país.

- Então? Estão querendo o quê? Entregar a diplomacia brasileira para o State Department? O Banco do Brasil para o Bank of America? Estou exagerando? O Guedes já falou em alto e bom som que do ponto de vista dele... pois é.

- Então, Briga, não me leve a mal. Mas deste Guedes jamais compraria um carro usado, pois ele viria com um enorme algoritmo nas lanternas traseiras. E, agora, se você me dá licença, vou desligar porque está na hora do meu vômito vespertino. Bullshit para você também.

À noite fomos ver a Cláudia Mauro na Sala Marilia Pera em imperdível atuação na peça de sua autoria “A vida passou por aqui“. Retrato agridoce da vida de seus pais, Joubert e Yara, com a sensibilidade que só o olhar da filha artista permite. Senti imensa saudade do Joubert, amigo de mais de 40 anos. Vivo, provavelmente iria tomar um chopp conosco e, diante de sua ironia fina e seu sarcasmo ferino, rirmos dos tempos tristes em que embarcamos nos vagões de uma Maria Fumaça com roda quadrada e apitando algoritmos.”Nós merecemos”, diria ele.”Aqui se faz e aqui se paga. O preço alto dos mitos, dos mitômanos e dos salvadores da Pátria”. Sem esquecer dos piromaníacos da Amazônia. E batucaria na mesa de mármore seu samba preferido: “Canta Canta minha gente, deixa a tristeza para lá.... que a vida vai melhorar” Será?

* Embaixador aposentado