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Mulher não é troféu!

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

Duas palavras marcaram a postura das brasileiras e brasileiros dentro do país e diante do mundo nos últimos dias: revolta e vergonha. O motivo foi o desrespeito sexista estampado nas redes sociais por parte do homem que ocupa o cargo político mais alto aqui no Brasil. Em uma postagem grosseira e carregada de ignorância, um internauta comparou a esposa do presidente da França, Emmanuel Macron, à esposa do homem que deixou o Brasil inteiro constrangido. Brigitte Macron, que é 24 anos mas velha que o líder francês, foi ridicularizada na postagem ao ter uma foto colocada ao lado da outra mulher, 27 anos mais nova que o marido. E o tal político que ocupa o cargo mais importante do Brasil endossou a baixaria, com um comentário mais estúpido ainda. Estava lá nas redes e nos portais de notícias para todos verem. E todos viram. E todas viram. E ninguém gostou.

No dia seguinte, já havia um movimento de pedido de desculpas de internautas brasileiras em toda a rede. O presidente Emmanuel Macron se pronunciou, categórico: “Ele fez comentários extraordinariamente desrespeitosos em relação à minha esposa. O que posso dizer? É triste. Mas é triste, sobretudo, para ele e os brasileiros. Penso que as mulheres brasileiras têm, sem dúvida, vergonha de seu presidente (sim, nós temos, Macron!). E como eu tenho muito respeito e admiração pelo povo brasileiro, espero que muito rapidamente eles tenham um presidente que se comporte à sua altura”.

Paralelamente à declaração de Macron, mulheres – e homens – de todas as idades, profissões e regiões repudiaram a postura grosseira, ignorante e machista do político brasileiro, que acabou por apagar a postagem das redes. Mas já era tarde. O mundo inteiro já havia visto o que a autoridade política mais alta do Brasil pensa sobre as mulheres, sejam elas jovens ou mais velhas. Ficou evidente que, para ele, as mulheres jovens são troféus, prêmios, bibelôs para serem exibidas como símbolos de superioridade dos homens; as mais velhas, motivos de “chacota”, “sarro” e desvalorização de quem está ao lado delas. Ora, se esse homem sem noção alguma de respeito e consideração às mulheres tivesse lido o livro “Liberdade, Felicidade e Foda-se”, da antropóloga Mirian Goldenberg, saberia que Brigitte Macron está na fase mais feliz e livre da sua vida. Recentemente, usei este espaço para escrever sobre a obra de Mirian Goldenberg, que pesquisa mulheres brasileiras há mais de trinta anos. Não é demais repetir o que está no livro, que a autora escreveu após entrevistar mais de cinquenta mulheres: elas dizem que aos 60 anos estão no melhor momento da vida. Ao chegarem a essa altura, constatam que podem ser elas mesmas, que nunca se sentiram tão livres. É quando começam a fazer o que a antropóloga chama de “faxina existencial”, que nada mais é do que a mulher se livrar não apenas de coisas, mas também de pessoas que só fazem mal, criticam e sugam energia. Qualquer semelhança entre este perfil citado no livro como alvo da “faxina” e o tal político em questão é mera coincidência...

Além de me lembrar desse livro ao mesmo tempo tão sério e leve, me chamou atenção nesse fato tão lastimável a reação imediata de aversão mundial à referida postagem. As mulheres e os homens não aceitam mais esses estereótipos machistas. As mulheres e os homens não naturalizam mais “brincadeiras” sexistas. As mulheres e os homens de 2019 estão em movimento para que as gerações futuras não tenham mais que lidar com esses pensamentos preconceituosos e atrasados.