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O jovem engenheiro e o primeiro Rock in Rio

Jornal do Brasil WAGNER VICTER*

“Me tira dessa! Coloca o engenheiro novo, cabeludo, que tem cara de gostar de Rock!!!”. Foi assim que em 1985, há 34 anos, e praticamente como engenheiro recém-formado, me sobrou o desafio improvável de coordenar a operação e a manutenção pela Concessionária de Energia Elétrica - Light de um Festival de Rock que eu sequer imaginava o que seria.

A Light era ainda uma empresa estatal e na ocasião recebeu a obrigação de montar uma pequena subestação para abastecer um novo evento que surgia, no meio do nada e que mal sabíamos a configuração e o comportamento da carga.

Confesso que na hora tremi e até hesitei em aceitar, pois, apesar de já fazer parte de um grupo que fazia manutenção de grandes subestações que ficava em um prédio histórico na Rua Frei Caneca no Catumbi, nunca havia assumido sozinho a coordenação da operação de um evento que se acontecesse algum problema teria a repercussão imediata, além disso, tinha pouco mais de 6 meses na empresa.

Montei uma equipe em que confiava com um encarregado experiente de nome Haroldo e começamos os procedimentos para supervisionar a montagem daquela subestação que era móvel e que trouxemos em caminhão e que era até pequena diante de outras que atuávamos. Os “peões”, como carinhosamente chamávamos os mecânicos e eletricistas, adoravam estes desafios, pois ganhavam horas extras turbinadas por adicionais noturnos, porém os engenheiros mais antigos fugiam destas operações, pois não recebiam qualquer adicional e só recebiam folgas como compensação razão pela qual herdei a responsabilidade do “Primeiro Rock in Rio” dos mais seniores!

Fui visitar o local onde seria o evento e me perdi! Na ocasião não havia os modernos GPS e a viagem foi feita em um fusquinha verde da empresa que eu mesmo dirigia de número serial 1434, que nunca esqueci e que carinhosamente apelidava de “Trovão Verde”, o que tornou a viagem ainda mais distante, já que naquela época ar condicionado e direção hidráulica só existiam em carro importado de bacana.

Quando cheguei ao local pensei: Esses caras são loucos!! Aqui não tem nada, só o barro que ganhava forma inexplicável por máquinas de terraplanagem que pareciam combater entre si e geravam muita poeira!

Meu gosto musical estava mais para a Pop Music, tipo Elton John, mas os anos anteriores com o hit “Show me the way” de Peter Frampton me fez fazer com que os bailes de Hi-Fi que frequentava de camisa Hang Ten, carrapetados pelo saudoso Disk Jockey Big Boy no Clube Jequiá na minha gloriosa Ilha do Governador tivesse encarnado naquele jovem engenheiro uma obrigação e responsabilidade de ficar a frente do evento como se eu fosse o mais importante artista!

Na primeira reunião com o pessoal da organização do evento confesso que assustei os caras que não acreditavam que aquele menino na ocasião magro e sem barba estaria assumindo uma responsabilidade que podia literalmente levar as trevas o evento! Para reduzir a tensão levei eles para conhecerem nossos escritórios associados a oficinas e algumas unidades de subestação rurais que tínhamos na Estrada dos Bandeirantes, próximo ao local.

É óbvio que tremia de medo! Os engenheiros mais seniores com que convivia na Light, Luiz Antônio Machado, José Manoel Carneiro e José Paulo Sarmento, ao mesmo tempo que me tranquilizavam naquela primeira experiência me davam dezenas de recomendações de postura!

Chegou o grande dia! Fui bem cedo ao local com minha equipe! Comemos sanduíches que nos eram dados pela organização e inclusive provei uma nova cerveja que praticamente era lançada no evento, de nome Malt 90, que vinha resfriada em caminhões criogênicos especiais, o que fez com que a tradicional soneca que tirávamos na hora do almoço fosse um pouco mais longa! Isso mesmo, tínhamos o hábito salutar de tirar um cochilo na hora do almoço e desde cedo aprendi a acompanhar a peãozada na soneca era salutar até como forma de integração com a equipe! Dormíamos no carro ou embaixo de qualquer sombra com um papelão sempre disponível em todo veículo de manutenção como um apetrecho fundamental de equipe!

Sentia-me realizado! Com a operação correndo bem eu já podia rodar os diversos ambientes com o crachá recebido da organização e logicamente eu o fazia devidamente paramentado com meu capacete branco, preso pela jugular e devidamente identificado pela marca da Light com meu nome colocado com adesivos que vendiam em papelaria, botas e um volumoso jaleco (Guarda Pó) azul só permitido a ser usado pelos Engenheiros e um vistoso “Bip” que era aparelho antecessor ao celular para avisar a existências de mensagens em uma central, muito utilizado por médicos a ocasião, mas que me conferia um caráter bastante profissional. Aquilo para mim era “onda pura”, pois aumentava a minha autoestima, em especial com aquele público juvenil feminino que fervilhava no evento e que catapultava meus hormônios de quase adolescente orgulhoso em ostentar tão jovem o nome Engenheiro no crachá que recebi da organização.

Em todos os dias do evento a operação foi um sucesso, ao ponto de, cada vez mais, permitir minhas “rodadas” no ambiente e me tornando cada vez mais conhecido, apesar das olheiras não recuperadas pelas poucas horas de sono que tirava em um motel (Dunas) na Barra da Tijuca em que me foi oferecido pela organização do evento e que, aliás, existe até hoje.

Como retribuição àquela dedicação, a organização do evento me ofereceu também alguns convites e pude na ocasião, me descaracterizando de Engenheiro, levar uma namorada que tinha à época para assistir ao show antológico de James Taylor e curtir uma chuvarada amenizada pelas belas capas de chuva amarelas da Light que existiam em nosso suporte de manutenção enquanto a maioria do público improvisava capas com sacos de lixo que surgiam para ser comercializados sabe lá vindo de onde!

A única tensão que tive se passou, quando já me considerava totalmente ambientado, pois resolvi assistir o show do Ozzy Osbourne me posicionando em cima do palco na sua lateral como se fosse membro da sua equipe de “Rock Pauleira”! O show transcorria daquela forma tradicional do grupo que assustava qualquer neófito diante daquelas performances que envolveu até um morcego e de repente a fiação de alimentação do sistema de iluminação de palco começou a pegar fogo e alguns da plateia me identificaram e começaram a gritar “olha o cara da Light! Pega”!. Não pensei duas vezes e saí correndo escondendo em uma mesa atrás do palco meu capacete e o vistoso jaleco azul até porque diziam as “lendas” aconteciam “performances macabras” no palco e na plateia e não quis me transformar naquele morcego tupiniquim a ser devorado em sacrifício até porque nosso limite de trabalho pela empresa se limitava até a saída da subestação e a alimentação interna cabia ao evento e sabia que se o caos viesse tais explicações soariam como piada para o público todo vestido de camisas pretas que estava ensandecido com o show.

Digo sem sombra de dúvida! O Rock in Rio teve real importância na minha carreira como Engenheiro! E costumo dar esse exemplo que muitas oportunidades que nos surgem não devem ser temidas e sim ser transformada em desafio o que pode até ajudar forjar um profissional.

Portanto sempre falo para alunos e também em palestras para jovens que são os momentos críticos que viram oportunidades especiais, que eventualmente surgem como forma de desafios temporais que se consegue trazer a grande experiência e forjar a personalidade de um profissional.

Tive ao longo dos meus mais de 30 anos como Engenheiro e como gestor público muitas vezes desafios profissionais que me foram trazidos frutos de oportunidades e até de tragédias e a forma com que pude enfrentá-los e foi onde tive o meu maior aprendizado, muito mais que as atividades rotineiras ou aprendizados em bancos escolares.

Portanto Jovem Profissional busque enfrentar seus desafios!! Não fuja deles e procure desafios para se desenvolver, pois com eles você terá um aprendizado que marcará além da sua vida profissional também o seu caráter, além de quem sabe ter uma boa história para contar no futuro.

*Wagner Victer Engenheiro, Administrador, foi Secretário de Estado de Educação, membro efetivo da Academia Nacional de Engenharia e da Academia Nacional de Economia, ex-Secretário de Estado de Energia, da Indústria Naval e Petróleo, ex-Presidente da FAETEC- Fundação de Apoio à Escola Técnica, ex-Presidente da CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro. Trabalhou em organizações como Light, Grupo Gerdau, Estácio de Sá e Petrobras. Autor do Livro “Cartas a um Jovem Engenheiro”. Atualmente é Diretor Geral da ALERJ.