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País - Artigo

Estados Unidos e Brasil: parceria ou dependência? (2)

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN

As declarações do presidente da República são muito claras. O Brasil deve buscar uma relação especial com os Estados Unidos da América. Durante a visita do ministro do Comércio americano a Brasília, o presidente após reunião com o Dr. Ross mostrou a dominância do alinhamento com os objetivos americanos, ao declarar que o recentíssimo acordo entre o Mercosul e a União Europeia deveria ser reexaminado para dele expurgar possíveis embaraços para a política comercial americana.

A declaração presidencial significa, na prática, que o acordo, pelo menos no que tange ao Brasil, entrou em compasso de espera. Subitamente, a euforia dos negociadores brasileiros e a insistência de que se deveria buscar um processo acelerado de ratificação do acordo explodiram como bolha de sabão.

Na imprensa,o assunto morreu. A indústria que estava muda, muda ficou. E o agronegócio que havia tanto defendido o acordo recolheu-se ao silêncio. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, que elogiou a capacidade do Brasil de negociar em 20 dias o que a ideologia impediu durante 20 anos, teve o infeliz ofício de explicar a seu confrade francês a importância de um corte de cabelo na corte do palácio do planalto.

O episódio é um triste exemplo da perda de soberania, sempre na raiz de relações especiais entres países de assimetria econômica, financeira e militar como é evidente entre os Estados Unidos e o Brasil. Na prática reabre-se o aforismo “o que é bom para os Estados Unidos seria bom para o Brasil”, mote do então embaixador do governo Castelo Branco nos primeiros meses do governo militar iniciado em 1964. Política abandonada logo depois pelos inconvenientes ao governo militar, do qual se pediu fidelidade sem contrapartida alguma ao projeto de desenvolvimento econômico do país.

Meio século depois, o governo brasileiro pretende ingressar no mesmo rumo historicamente equivocado. Com uma agravante; se em 1964 estávamos sob a influência da dicotomia da guerra fria, em 2019 conhecemos a estratégia unilateral defendida pelo Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América de reforçar o papel hegemônico daquele país. Aliar-se hoje aos Estados Unidos significa uma opção por um sistema de poder e não mais de valores.

Os Estados Unidos deixam claro em seus atos e atitudes que as antigas aspirações de defesa da democracia no mundo ocidental passaram a plano inferior na luta pelo domínio da tecnologia, do comércio e da política internacional no século 21.

A política de Trump exacerba os passos iniciados por Bush filho, desde a malograda invasão do Iraque, e hoje se torna visível no contínuo enfrentamento com a China e na tentativa de desarticulação da União Europeia com seu ostensivo apoio ao Brexit. Neste contexto, é evidente que o acordo Mercosul - União Europeia representa uma intrusão indesejada numa área que os Estados Unidos consideram como de sua influência direta e na qual o Brasil tem papel primordial.

As ponderações do Dr. Ross têm de ser examinadas nesta perspectiva. Ao obstruir o acordo, o ministro do comércio americano acena com a participação de seu país nos projetos de infraestrutura que conheceu no Brasil. Ao fazê-lo tem consciência de que o acordo Mercosul - União Europeia abriu para empresas europeias o mercado preferencial brasileiro, o que poderia torná-las importantes concorrentes para empresas americanas. Aos Estados Unidos interessa muito mais um acordo bilateral de comércio ( não com o Mercosul), onde o Brasil se torne dependente da tecnologia, do financiamento, dos serviços e sobretudo da estratégia americanos.

Para um país com as dimensões territoriais, demográficas e de riquezas naturais como o Brasil não deveria interessar um vínculo sacramental com qualquer hegemônico, seja ele os Estados Unidos, a União Europeia ou a China. A política externa dos últimos 20 anos, com sobressaltos, teve a capacidade de evitar esses alinhamentos automáticos, que , a bem da verdade, começou ainda no período militar com Geisel e Silveira ,como já recordei em artigo anterior.

Escoimar esta política como sendo ideológica e contrária aos interesses nacionais e defender uma outra claramente desarticuladora do sistema internacional e com evidentes possibilidades de levar o país a uma dependência inextricável ultrapassa em muito a inteligência deste comentarista.

Contribui para esta opção melancólica a absoluta incapacidade do Chanceler brasileiro de apresentar ao chefe de Estado uma alternativa política mais consentânea com os desafios que enfrentamos neste começo de século. Mais do que a perplexidade com que nos olham os países das Nações Unidas, o que mais incomoda é o vácuo deixado pelo Brasil nos organismos econômicos e políticos internacionais, em que sempre nos pautamos pelos princípios da Carta das Nações Unidas, pela solução pacífica de controvérsias, pelo direito ao desenvolvimento econômico e pela redução da disparidade de riqueza e pobreza entre os povos. Hoje somos quase párias, como se vencidos por uma força de ocupação. E multiplicam-se as capas de revistas internacionais em que o Brasil surge como o arrogante rebelde de causa alguma.

Contribui decisivamente para esta marcha sem futuro a obcecada visão nada iluminista de nosso ministro da economia que se propõe a reduzir o Estado brasileiro a uma vassalagem a mercados cúpidos e descompromissados com o futuro de gerações impedidas de participarem da construção do Estado delineado na Constituição de 1998.

Acresce que o acordo ou a relação especial com os Estados Unidos nos limitará a capacidade de gerir nossa política financeira,nossa eventual política industrial. Deixar um país como o nosso subordinado a ideologias ultra liberais, que os Estados Unidos são os primeiros a evitar a qualquer custo, é envergar uma camisa de força com a ilusão de que jogaremos na primeira divisão do hospício geral. Porém, há loucos que não rasgam dinheiro e há os outros.