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Felicidade rima com liberdade

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO*

A felicidade bateu à minha porta em forma de livro. Um livro amarelo, com uma capa divertida e um título engraçado. Quando bati o olho no nome da autora, sabia que viria algo leve e sério ao mesmo tempo: Mirian Goldenberg é doutora em Antropologia, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal Fluminense e autora de vários livros que abordam a situação da mulher. Da sua tese de doutorado surgiu a publicação Toda mulher é meio Leila Diniz, que trata da atriz que chocou o país ao aparecer em uma foto grávida, com o barrigão de fora, de biquíni. Em uma das entrevistas que concedeu sobre este e outros livros, Mirian Goldenberg definiu Leila Diniz como precursora do feminismo no Brasil, uma feminista intuitiva que influenciou as gerações seguintes. Elegendo a mulher em sua subjetividade como foco principal, Mirian Goldenberg escreveu outras obras como A outra, Por que os homens traem? e A bela velhice. Conforme ela mesma define no primeiro capítulo do seu mais recente livro – Liberdade, felicidade & foda-se! – “se existisse alguma linha invisível que costurasse tudo o que eu produzi, gostaria que ela fosse chamada de Antropologia da felicidade”.

Impossível não concordar com a escritora, principalmente se, antes de iniciarmos a leitura do livro, assistirmos ao vídeo da palestra que Mirian deu no TEDxSãoPaulo Mulheres que Inspiram, em 2017. São onze minutos de receita de felicidade, em que a plateia participa, ri e aplaude. A diferença entre a “receita” de Mirian Goldenberg e inúmeras outras que povoam a internet e páginas de livros é que as dicas e análises feitas por ela são embasadas nos estudos acadêmicos da autora, que pesquisa as mulheres brasileiras há mais de trinta anos. Tanto o vídeo quanto o livro trazem o que a antropóloga chama de “curva da felicidade”: as mulheres que têm entre 40 e 50 anos são as que estão mais “insatisfeitas, frustradas, deprimidas e exaustas”, nas palavras da própria Mirian. As mais jovens e as mais velhas são as mais felizes. A autora afirma que as mulheres que estão entre os 40 e os 50 se queixam de falta de tempo, de reconhecimento e de... liberdade. O que essas mulheres mais invejam em outras são indicativos das causas da infelicidade: corpo, beleza, juventude, magreza e sensualidade. Fatores que não surpreendem no país que lidera o ranking de cirurgias plásticas no mundo. E de botox, remédios para emagrecer e ansiolíticos. A tristeza vai além: ao chegar nesta faixa etária, muitas mulheres deixam de sair de casa, ir a festas, se divertir porque se sentem feias, gordas e velhas. Mirian Goldenberg é categórica: a mulher brasileira tem pânico de envelhecer!

Mas o ditado diz que não há mal que dure para sempre. E a boa notícia é que após os 50 a curva da felicidade começa a subir. Várias mulheres que a antropóloga entrevistou e que são citadas no livro afirmam que aos 60 anos estão no melhor momento da vida. O motivo é muito simples: ao chegarem a essa altura, as mulheres constatam que podem ser elas mesmas, que nunca se sentiram tão livres. Nessa fase da vida, elas se sentem à vontade para dizer “não” a para fazer o que a autora chama de “faxina existencial”. Mirian Goldenberg dá a receita mágica: faxina existencial é a mulher se livrar não só de coisas, mas também – e principalmente – de pessoas que só fazem mal, que só criticam, que só sugam energia. Ela os classifica de vampiros emocionais. Todas as dicas estão lá no livro. De forma direta e compreensível.

E há mais ingredientes essenciais que garantem a felicidade lá na curva dos 60: ter projeto de vida, não se preocupar com o que os outros pensam, dizer não para tudo o que a pessoa não quer mais na vida dela e curtir as amigas. Porque todas e todos já sabemos que mulheres devem ser amigas de mulheres.

Entre depoimentos, exemplos, dicas e referências acadêmicas, Liberdade, felicidade e foda-se! consegue passar a mensagem principal para as mulheres de todas as idades: felicidade rima com liberdade! Mas para tudo isso, Mirian Goldenberg enfatiza, é primordial que as pessoas atinjam os 60 com boa saúde e estabilidade financeira. Fica a dica para governantes e autoridades.

* Lídice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP