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País - Artigo

A honra de César

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN*, bahadian@jb.com.br

O discurso de Marco Antônio diante do cadáver de César tem seu centro dramático em torno de uma frase terrível ”Brutus é um homem honrado”, mas, Brutus, filho adotivo de César, corroído pelos vermes da ambição, havia sido o autor da trama que levara ao crime político mais lembrado na história dos tempos. “Brutus is an honourable man”, repetido diversas vezes no discurso de Marco Antônio, transforma-se de elogio em dúvida ,de dúvida em sentença.

Séculos depois, neste ano de 2019, no Brasil, a honra de um homem se confunde com a honra de uma nação. A sociedade se reparte em dúvidas e suspeitas que assombram pelo risco de passos indevidos na estrada da justiça.

Neste domingo, em que comemoramos o Corpus Christi e em que lembramos as palavras de tolerância e solidariedade não só da pregação cristã mas também do Iluminismo racional, a nação se depara com fotografia estampada nos principais jornais do país em que se vê ,ao lado de pastores evangélicos, um sacrílego gestual de mortandade.

As verdades e as crenças neste país parecem distorcidas a tal ponto que semeiam nas consciências o paradoxo da incredulidade. Somos honestos, somos cristãos?

Se honestos, por que nos parece crível o discurso do homem honrado? Se cristãos, por que nos parece aceitável uma política que defende a mais insana distribuição de armas a um povo perplexo e dividido,temeroso de sombras que aparecem como sóis de libertação? Se somos cristãos por que nos parece moderna uma economia que desemprega milhões, aumenta a mortalidade infantil, reduz a distribuição de remédios aos desamparados,constrange a escola pública,sufoca a liberdade universitária e desconfia dos que não rezam na mesma cartilha do neoliberalismo mais desumano que se espalha pelo país afora?

Estamos reinventando uma estranha forma de vida em que, em nome de reinterpretações ideológicas da palavra de Deus,plantamos na sociedade o câncer de um ódio entre irmãos e ,de forma solerte e inconsequente,estimulamos uma solução tão final quanto a que no século 20 levou a duas guerras mundiais? As soluções mesquinhas do preconceito, da discriminação, da injustiça social e da indiferença pela sorte de milhões de brasileiros.

Não temos sequer a nos consolar o pretexto de que fomos invadidos por força militar imbatível. O que estamos vivendo foi desejado pela maioria dentre nós,pelo sagrado direito do voto. Por ódio ou medo ou uma combinação dos dois e o cicio da serpente de uma reconstrução nacional modernosa temos o que pedimos e aceitamos.

Somos os arquitetos desta destruição. Aos poucos, em grandes ou pequenas garfadas ,veremos nossos direitos sociais e constitucionais serem abocanhados por bocas amistosas como tubarões. Nossas empresas estatais estão à venda. As subsidiárias delas sem sequer licitação. Outras dentadas virão.E não crescemos. Estamos em franco retrocesso. Na indústria,no emprego,na construção civil. Na ética.

Nesta hora,o arrependimento ,se houver,só poderá ser efetivo e eficaz se nos voltarmos para nossos representantes eleitos para o Congresso e em especial para a Câmara dos Deputados e exigir que nossos direitos constitucionais em vigor não sejam dilapidados. Felizmente,temos um número considerável de deputados engajados nesta luta e a eles temos que mostrar nosso apoio e solidariedade . Para que não se pense que falo em abstrato,cito o líder da oposição na Câmara, Deputado Alessandro Molon a quem sou grato pela firmeza e dignidade com que vem defendendo a Constituição e sobretudo os direitos fundamentais nela inscritos. Devemos estimula-lo com nossa palavra, com nossos e-mails e com nosso apoio cívico. Não é mais hora de pensarmos em preferências partidárias. Todos os partidos foram dizimados. A hora é de defesa da democracia e da Constituição. O resto é o resto.

Não pensem que a tarefa será fácil. Nossa Constituição está em constante ameaça. Até mesmo por alguns dos que deveriam por obrigação e ofício serem os primeiros a defendê-la. Informa-se que o presidente do Supremo Tribunal Federal pretende promover uma revisão da Constituição para torná-la menos repetitiva e menos “detalhista “. Trata-se de cortar-lhe as asas como fazemos com nossos pássaros de estimação a quem retiramos a liberdade de voar em nome de nossa alegria de escravocratas.