Jornal do Brasil

País - Artigo

Cristal trincado

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN *

Quem viveu conhece a experiência. Às vezes pode ser uma palavra fora do lugar. Um olhar. Um sorriso amarelo. E de repente o encanto se trinca como um cálice de cristal. E a partir daí um mecanismo desumano se instala e por mais que não queiramos evitá-lo, a lógica impiedosa da razão vai reduzindo a quimeras o que há pouco nos parecia um caminho atapetado de sonhos.

A verdade que nos surge intempestiva por um olhar desviado,um sorriso forçado ou frouxo demais, nos esfrega na cara nossa própria ilusão e ridiculariza nossa inocência, ou pior, nossa ingenuidade. E passamos a querer apressar a partida, envergonhados de termos acreditado no que não passava de uma projeção infantil de nossos desejos e temores, nossas buscas de um mão forte, como a de nossos avós, sempre imaculadas. E, com lágrimas ou com raiva, com ódio ou desprezo, nos vemos afivelando as bolsas de nossas mochilas, convencidos de que afinal nada mais somos do que caminhantes errantes, sôfregos por uma paixão redentora e eterna.

A cena política brasileira trincou esta semana. Se no futuro tivermos historiadores atentos para os aspectos menos superficiais do que os desmentidos oficiais e as crônicas dos sabujos, eles saberão ver que até os mais próximos dentre os próximos,os mais estrelados no firmamento, sentiram o golpe e o atenuam por dever do ofício público, enquanto na intimidade ou entre poucos, rangem de raiva e de dor.

Como amantes traídos, se arrependem antes de mais nada do dia em que se conheceram. Um dia que parecia encantado pela própria natureza e que hoje se revela sombrio, chuvoso e mentiroso. E agora,diante dos fatos irrefutáveis e muito pior ainda diante da atitude “assim é a vida“, com que se responde aos reclamos e aos pedidos de esclarecimento, se dão conta de um erro irreparável e de que foram usados numa tramoia de vivaldinos, cuja face ainda não se expôs totalmente, mas cuja risada histriônica é mais humilhante do que a própria derrota política.

Frases e até bilhetes publicamente disseminados ridicularizam a potência do amante descartado, sua empáfia no falar, sua cafonice no vestir, seu primarismo no pensar. Uma impensável linguagem de bordel transplantada para os salões da República, repudiada por todos, menos por quem seria importante e definitivo repudiar. E, diante deste silêncio compassivo, repercute nos porões de uma ideologia arque-reacionária os aplausos ao gênio do mal, ao vendidos dos vendidos, transformado por crentes de um credo derrotista, no farol de um novo mundo em que a democracia se ajoelha diante do autoritarismo e o patriotismo diante de uma ideologia entreguista e subordinada a interesses financeiros que mal se conhece.

E tardiamente ressoa pelos mares do Brasil os sinais de alarme e de pedidos de auxílio. E de lados que julgávamos aliados sopram ventos carniceiros que nos propõem a venda, na bacia das almas, de nossos bens da União, dos estados e dos municípios. A venda e o arrocho social com reformas que revelam sua verdadeiras faces quando, como a reforma trabalhista ou a PEC do teto de gastos, revelaram as delas com o desemprego endêmico e as reduções drásticas nos programas sociais. E passamos a morrer paulatinamente.

Enfurnado na vergonha dos traídos, boa parte da sociedade acorda do sonho e, como todos os que apenas sabem sonhar, esperançosa de que surja logo um novo mártir, um novo mito, uma nova miragem.

E enquanto for assim, a sociedade multiplicará suas injustiças, punirá seus estudantes e o país será o palco iluminado de uma subserviência obscura auto-impingida. Apenas a Constituição e a consciência de seus mandamentos de justiça, a que devemos todos estar vinculados, promoverá a retomada do crescimento socialmente justo e o desenvolvimento de nossas potencialidades materiais e humanas.

Da mesma forma que, quando o cristal estala em nossas relações pessoais íntimas e sofridas, só a certeza de que a abertura para relações em que se admite o outro com suas imperfeições e fraquezas, nos abre espaço para uma vida de companheirismo e de partilha do destino.