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Qual é o impacto do medo e da raiva na sociedade moderna?

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O medo e a raiva se tornaram um problema de saúde mental quando deveriam ser apenas uma reação temporária e vem fugindo do controle das pessoas na sociedade moderna.

Ao sair de casa, na rua, na casa de familiares e amigos e até mesmo na internet vivemos em um eterno estado de alerta seja por uma situação de violência ou para evitar qualquer situação traumática. Nos tornamos refém destes sentimentos sem perceber. Mas qual é o impacto do medo e da raiva do nosso cotidiano?

“O medo faz com que percebamos as coisas como elas não são“. Começando por essa máxima de William James, nome importante para Psicologia que se desenvolveu nos Estados Unidos, podemos entender que estados de ânimo prejudiciais à saúde, que recolhem do mundo impressões hostis, acabam por buscar coisas que representem tais afetos penosos, norteando assim as escolhas do indivíduo, pautado pela dor ou por medo desta.

O medo, nada mais é, que a raiva voltada para dentro do sujeito. Neste estado infrutífero, afetos e ideias se ligam a representações em uma espécie de vínculo não salutar que é capaz de gerar doenças. Quando o medo é assessor, se vivencia o tempo como algo desfavorável. É o sentimento que gera a sensação de inaptidão e incapacidade, simplesmente por estreitar ou encurtar o tempo necessário para o êxito em parte das coisas. Uma má concepção de tempo leva a tristezas, ansiedades e nesse ritmo também à depressão, o mal da pós-modernidade.

A raiva, por outro lado, pela sua tendência a uma intensidade colérica, altera também a percepção de mundo ao nosso redor. Comumente em estado de raiva, nós nos consideramos como fortes, quando apenas estamos com raiva. Neste caso, propiciado por esse sentimento, torna-se evidente que a partir de certa intensidade, ocorre uma mudança na qualidade da percepção, alterando assim o sentido das palavras que ouvimos, o tom e a intenção de quem as profere. Explodimos assim, nosso mundo, sem sabermos aonde iremos morar.

Para além da raiva e do medo, e de todos os sentimentos que se opõem, está o bom uso das situações, do diálogo e das relações que estabelecemos com o mundo. Os temperos (sentimentos), os quais, mais adiante usaremos como parceiros que nos aconselham buscando caminhos de possibilidade, se bem ouvidos e não mal enxergados, podem ser e devem ser instrumentos valiosos para uma vida plena e suficientemente boa.

Guilherme Fainberg é médico psicanalista