Os frentistas do posto Ipiranga

O resultado da votação preliminar da reforma da Previdência é vitória do ministro Paulo Guedes e do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia. Não revelo nenhuma inconfidência. O deputado deixou claro, em entrevista, que a aprovação da reforma da Previdência é um dos maiores objetivos de sua vida parlamentar. Aplaudo a franqueza, mas presumo que a oposição terá que lidar com poderoso articulador do governo, sentado numa cadeira que, neutra, melhor seria servida.

Caberá à oposição democrática a imprescindível tarefa de clarificar o que ultrapassa em muito os limites da esfera previdenciária e se apresenta como a mãe do novo Brasil. Corre-se risco de confundir esclarecimento legítimo e necessário com uma hipotética obstrução à aprovação de uma legislação controvertida, para dizer o mínimo.

Os números e as planilhas que o governo colocará à disposição do Legislativo exigem um escrutínio minucioso, certamente visto como impertinente por cabeças que pensam na mesma onda emitida pelos neurônios ministeriais. Na medida em que o ministro da economia afirma ser a reforma da Previdência condição sem a qual não se pode vencer a estagnação econômica, o prazo de exame, que poderá ser de alguns meses, será intolerável para os que não duvidam das medidas propostas. Reside aqui, nesta falácia ou nesta certeza, um dos principais imbróglios com que nos defrontamos.

Ao congelar ou não propor nenhuma medida adicional de desbloqueio do crescimento econômico, Paulo Guedes propõe ao povo brasileiro o enigma da esfinge. A sociedade já está sendo devorada há quatro anos por verdades consideradas inabaláveis, como a PEC dos gastos e a reforma trabalhista. As estatísticas oficiais são claras e indiscutíveis. Reduziu-se o crescimento econômico. Aumentou o desemprego. Diminuiu a renda das famílias. Dentre outras mazelas maiores, acentuou-se a injustiça social. Não falo de hipóteses. São fatos.

O futuro será tão árido ou pior que o passado. E exigirá, dos que creem em alternativas macroeconômicas menos desumanas, paciência e controle emocional acima da média. Para complicar, a par do que se discute no Legislativo, o clima político vem-se tornando pesado por conflitos e desavenças indesejáveis. e suscetíveis de levantar suspeitas de que o governo sequer consegue encontrar coerência interna. Preocupa que, destemperos verbais, nem sempre compreensíveis e sequer publicáveis, estejam quase diariamente nas redes sociais envolvendo altas autoridades e denegrindo instituições do Estado. Ideologias sequer suspeitadas no período eleitoral, emergiram desde os primeiros dias de governo.

O exemplo mais óbvio ocorreu no Itamaraty. O discurso de posse do chanceler, mais do que peculiar na forma, semeou não só internamente, mas também junto à comunidade internacional, espanto, perplexidade e ridículo. Se há uma área em que o Brasil expôs, de forma eloquente, amadorismo e inconsequência foi na diplomacia. Numa área mais do que sensível, as propostas parecem advir de filósofo canhestro de um lado e sinistro articulador de movimentos autoritários e campanhas eleitorais suspeitas, de outro. Ambos aparentemente ouvidos em Brasília. O chanceler parece ter-se dado conta finalmente da importância chinesa para a economia brasileira e verá que o desgaste por ele próprio criado não será tão simples de corrigir. O Senado federal deveria impulsionar audiências públicas sobre a política externa. Se não o fizer, terá o desprazer de se defrontar no futuro próximo com amargas e danosas decisões sobre política internacional e comércio exterior.

O encoberto problema gerencial em relação à Apex, órgão de promoção de exportações, que passa a ser gerido por oficial do exército, deveria encimar a pauta das audiências. Os juízos de valor, emitidos no linguajar coprolalico do filósofo de Virgínia, sobre as Forças Armadas procuram cindir o governo brasileiro, numa manobra cafajeste na forma e criminosa na intenção. A ninguém de bom-senso interessa retardar a retomada do desenvolvimento brasileiro, agravando a instabilidade institucional. E a todos interessa manter o Estado Democrático de Direito, tal como consagrado na Constituição de 1988.

Que não se acuse a sociedade brasileira de intenções recônditas, quando se mostra descrente diante de uma política fantasiosa e que a cada dia revela sua face desumana e ideologicamente repulsiva. A configuração de frente democrática de oposição no Legislativo deve ter como objetivo salvaguardar direitos legítimos inscritos na Constituição. Trata-se de ato cívico que será reconhecido pelas gerações que nos sucedam.

O que vemos a exalar dos movimentos autoritários deveria nos fortalecer na responsabilidade de reerguer este país de forma democrática, consensual e identificada com a grandeza de nosso território e de nosso povo. Ao contrário do lema fascista “ pão e circo”, o povo justificadamente reclama pão, emprego, escola e saúde. O circo já cansou, faz alguns anos.