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O que emudece não pode ser celebrado...

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Uma das características mais nobres do ser humano é seu potencial de comunicação. É a partir dessa competência que o homem ao longo de sua jornada no planeta cria múltiplas formas de linguagem, constrói saberes, estabelece relações afetivas e externa sua criatividade. Por outras palavras: a comunicabilidade é uma das qualidades basilares que define a natureza humana. Assim sendo, a liberdade de expressão é vital para que a humanidade caminhe avante e evolua em diversos aspectos. Portanto, qualquer tentativa de fazer calar é nocivo retrocesso a ser combatido. Os regimes ditatoriais são execráveis, antes de tudo, porque não admitem a pluralidade de vozes e desrespeitarem a diversidade. Para emudecer, instituem práticas com requinte de crueldade, seguindo duplamente na contramão do sentido humanitário.

Se pudéssemos fazer um exercício de imaginação e descolássemos, ao menos por alguns instantes, os discursos das ideologias às quais se vinculam, talvez identificássemos, mais fácil e claramente, que silenciar quem quer que seja é, em si, brutal. Não bastasse isso, as formas de fazê-lo durante governos totalitários não economizaram truculência e crueldade. Assassinatos, flagelação de pais diante de filhos, tortura psicológica, espancamento, violência sexual, enforcamento, desaparecimento de adultos e crianças, fuzilamento, perseguição a homossexuais pelo simples fato de assim o serem ou mutilação de membros e órgãos do corpo, são alguns exemplos da barbárie consumada em ditaduras, sejam de esquerda ou direita. Independentemente dos princípios que se queira defender, nada justifica tais monstruosidades.

Celebrar momentos históricos nos quais o povo foi calado a qualquer preço, é comemorar a violação oficial dos direitos humanos, é desrespeitar famílias inteiras que até hoje sofrem as repercussões traumáticas do fanatismo político, é comprometer a democracia e os direitos fundamentais dos cidadãos. O que dizer diante de tantas deformações? Na infinita capacidade de enunciar do homem e suas invenções, o gênio do cinema mudo, em seu primeiro filme falado, nos conta algo de enorme importância. No longa-metragem de 1940, O grande ditador, Charles Chaplin nos apresenta a história do personagem Adenoid Hynkel, que assume o poder de Tomainia, país inventado. Acreditando na supremacia de uma suposta raça puramente ariana, passa a perseguir os judeus locais. Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência.

O ditador fictício é uma paródia de Hitler em sua insana sede de poder, e crítica aos que o seguem cegamente. Ao ridicularizar a imagem do ditador, Chaplin promove espécie de catarse, nos fazendo rir do que mais tememos. E assim, redimensiona medos e encoraja, ao demonstrar, poeticamente e pelo riso, a diferença entre autoridade e autoritarismo. A clássica cena em que brinca com o globo, em balé, dá a medida do quanto, de certa forma, o ditador é despreparado e mais se assemelha a uma criança mimada que à alguém ciente de seu poder. Chaplin possui a coragem dos românticos. Em plena Segunda Guerra Mundial criticava abertamente os poderosos. É daqueles artistas que vêem em sua habilidade de expressão a potência de denunciar e buscar equidade. Aqueles que, a despeito de estarem vivendo um tempo de consagração da mediocridade e desatino, acreditam e lutam por um mundo mais justo e melhor para todos. Uma sociedade na qual o amor e a dignidade sejam senhores absolutos. Obrigada, Carlitos! O que sempre merecerá comemoração é a liberdade de dizer.

* Mestre em Teatro. Doutora em Ciências